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Revisão das cardiomiopatias genéticas para provas: classificação fenotípica e genética, principais genes (sarcoméricos, desmossômicos, LMNA, TTN, síndromes), mecanismos, rastreio familiar, indicações de teste genético e tratamento com doses. Inclui critérios diagnósticos, risco de morte súbita e pontos clássicos de prova.
[1] Hama FM, Rocha EG, Azeka E. Cardiomiopatias genéticas: uma visão geral das principais mutações patogênicas associadas. ABC Heart Fail Cardiomyopath. 2025;5:e20240052 · DOI 10.36660/abchf.20240052 | [2] Arbelo E, Kaski JP, et al. 2023 ESC Guidelines for the management of cardiomyopathies. Eur Heart J. 2023;44(37):3503-3626 · DOI 10.1093/eurheartj/ehad194 | [3] Hershberger RE, Givertz MM, Ho CY, et al. Genetic evaluation of cardiomyopathy: a clinical practice resource of the American College of Medical Genetics and Genomics. Genet Med. 2018;20(9):899-907 · DOI 10.1038/s41436-018-0068-2 | [4] Watkins H, Ashrafian H, Redwood C. Inherited cardiomyopathies. N Engl J Med. 2011;364(17):1643-1656 · DOI 10.1056/NEJMra0902923 · DOI 10.36660/abchf.20240052
As cardiomiopatias são doenças do músculo cardíaco com forte componente genético: entre 30% e 60% dos casos de cardiomiopatia hipertrófica, 25% a 40% dos casos de cardiomiopatia dilatada e cerca de metade dos casos de cardiomiopatia arritmogênica têm base monogênica identificável, com herança autossômica dominante na grande maioria. Para a prova, o aluno deve dominar quatro competências: reconhecer os fenótipos (hipertrófico, dilatado, arritmogênico, restritivo e não compactado), associar cada fenótipo aos seus genes de maior rendimento, interpretar o resultado do teste genético (variante patogênica versus variante de significado incerto) e conduzir o rastreio em cascata dos familiares de primeiro grau.
O tema ganhou contorno guideline-driven: as diretrizes da Sociedade Europeia de Cardiologia de 2023 foram o primeiro documento internacional dedicado integralmente às cardiomiopatias e propõem uma abordagem centrada no fenótipo, com o teste genético integrado ao cuidado de todos os fenótipos, e não apenas da cardiomiopatia hipertrófica. No Brasil, a revisão publicada no ABC Heart Failure and Cardiomyopathy pelo grupo de cardiopatias da criança e do jovem resume as principais mutações patogênicas e serve de leitura de referência em língua portuguesa.
Cardiomiopatia é um distúrbio do miocárdio no qual a musculatura cardíaca é estrutural ou funcionalmente anormal na ausência de doença coronariana, hipertensiva, valvar ou congênita suficiente para explicar o achado (definição operacional da ESC). A classificação fenotípica clássica permanece a base da linguagem clínica: hipertrófica (espessamento não explicado de parede), dilatada (dilatação e disfunção sistólica do ventrículo esquerdo), restritiva (restrição ao enchimento com tamanho ventricular normal ou reduzido), arritmogênica (substituição fibrogordurosa, sobretudo do ventrículo direito) e não compactada (trabeculação excessiva).
Três conceitos estruturam a interpretação: penetrância incompleta (nem todo portador da variante desenvolve a doença; na CMH sarcomérica pode atingir apenas 50% a 70% até a idade adulta), expressividade variável (a mesma variante gera gravidade distinta dentro da família) e antecipação (aparição mais precoce e grave em gerações sucessivas, típica da distrofia miotônica por expansão de repetições CTG no gene DMPK). O resultado do sequenciamento é classificado em cinco categorias (ACMG/AMP): patogênica, provavelmente patogênica, de significado incerto (VUS), provavelmente benigna e benigna — apenas as duas primeiras orientam rastreio em cascata.
A morte súbita em indivíduos jovens aparentemente saudáveis é a face mais dramática: as cardiomiopatias figuram entre as principais causas estruturais em série de necropsia, com destaque para a CMH em menores de 35 anos. No Brasil, inquéritos de necropsia em vítimas jovens de morte súbita cardíaca repetidamente identificam cardiomiopatias e miocardite entre as etiologias principais, ao lado da doença aterosclerótica precoce.
| Gene | Proteína e função | Fenótipo típico | Particularidade de prova |
|---|---|---|---|
| MYH7 | Cadeia pesada de beta miosina (sarcomere motor) | CMH, menos frequente CMD/CMR | Autossômico dominante; alta penetrância; associado a prognóstico intermediário e início mais precoce que MYBPC3 |
| MYBPC3 | Proteína C de ligação da miosina (reguladora do sarcômero) | CMH | Gene mais frequentemente mutado na CMH; com MYH7 responde por cerca de 60-70% dos casos genotipados |
| TNNT2 e TNNI3 | Troponinas T e I cardíacas (regulação contrátil) | CMH e CMD | Troponina T: menor grau de hipertrofia, mas risco desproporcional de morte súbita |
| TTN | Titina (molecular spring do sarcômero) | CMD (variante truncante) | Variantes truncantes (TTNtv) em cerca de 10-25% das CMD genéticas; penetrância modulada por posição da variante e fatores ambientais |
| LMNA | Laminas A/C (envelope nuclear) | CMD com doença de condução | Bloqueios e taquiarritmias antes da disfunção; alto risco de morte súbita mesmo com FE preservada; indicação precoce de CDI |
| DES e FLNC | Desmina e filamina C (citoesqueleto) | CMD miopática e CMA | FLNC truncante: risco arrítmico elevado; DES: miopatia de inclusão de desmina |
| RBM20 | Regulador do splicing do RNA (titina e outros) | CMD agressiva de início jovem | Fenótipo grave com taquiarritmias e disfunção precoce |
| PKP2, DSP, DSG2, DSC2, JUP | Desmossomos (adesão intercelular) | CMA (coração arritmogênico) | PKP2 é o gene mais mutado na CMA; DSP pode gerar fenótipo dilatado-esquerdo; risco arrítmico sob esforço |
| PLN e TMEM43 | Fosfolamban e LUMA (regulação do cálcio) | CMA e CMD | PLN p.Arg14del: variante fundadora na Holanda, arritmogênese importante |
| SCN5A | Canal de sódio Nav1.5 | CMD, síndrome de Brugada, taquicardia ventricular | Gene de sobreposição cardiopatia estrutural x canalopatia |
| GLA | Alfa-galactosidase A (lisossomal) | Doença de Fabry (fenocópia de CMH) | Ligado ao X; angioceratomas, proteinúria, acroparestesias; tratável com reposição enzimática ou migalastat |
| LAMP2 | Lissossomal associado à membrana 2 | Doença de Danon | Ligado ao X; CMH grave com pré-excitação (WPW) e miopatia proximal; prognóstico ruim, avaliar transplante |
| PRKAG2 | Subunit regulatória da AMPK | CMH com pré-excitação e glicogenose | Tríada de prova: hipertrofia, WPW e distúrbio de condução |
| DMD e TAZ | Distrofina e tafazzina | CMD ligada ao X | Distrofia de Duchenne/Becker e síndrome de Barth (neutropenia e cardiopatia no lactente) |
| TTR (V142I e outras) | Transtirretina | Amiloidose cardíaca hereditária (fenocópia de CMH/CMR) | Variante V142I prevalente em ancestralidade africana; hipertrofia com paredes espessas, FE preservada e condução anômala; procurar túnel do carpo bilateral prévio |
Nas cardiomiopatias sarcoméricas, mutações de perda de função em MYBPC3 e de ganho de função em MYH7 convergem para hipersensibilidade das miofibrilas ao cálcio, aumento da contratilidade, esgotamento energético mitocondrial e desorganização dos miofilamentos: a hipertrofia assimétrica do septo seria resposta secundária a um sarcômero hipercontrátil, com microisquemia e fibrose que explicam angina, arritmias e gradiente de via de saída. Nas variantes truncantes de TTN, a perda de segmentos da titina compromete a elasticidade e a transmissão de força, gerando dilatação sob stresses adicionais (gestação, etanol, quimioterapia, hipertensão).
Nas cardiomiopatias arritmogênicas, a falência dos desmossomos (PKP2, DSP, DSG2) rompe a adesão intercelular sob esforço mecânico, com descolamento de cardiomiócitos, morte celular por apoptose e substituição progressiva do miocárdio por tecido fibrogorduroso — daí a morte súbita durante o exercício e a disfunção inicialmente regional do ventrículo direito. Nas laminopatias (LMNA), a instabilidade do envelope nuclear torna os cardiomiócitos frágeis à tração mecânica, com necrose substituída por fibrose que acomete primeiro o sistema de condução (bloqueios, fibrilação atrial precoce) e depois o músculo, configurando o fenótipo de alto risco arrítmico com disfunção ainda leve.
A apresentação vai do indivíduo assintomático detectado em rastreio familiar ao quadro de insuficiência cardíaca, arritmia, síncope de esforço ou morte súbita abortada. Na CMH: dispneia de esforço, angina atípica, palpitações e pré-síncope/síncope; sopro sistólico que aumenta com manobra de Valsalva no CMH obstrutiva e pulso bisferiens. Na CMD: sinais de baixo débito e congestão, com intolerância a esforço progressiva. Na CMA: palpitações e sincopes desencadeadas por esforço, extrassístoles ventriculares com morfologia de bloqueio de ramo esquerdo. Sinais que ampliam o diagnóstico além do coração devem ser ativamente procurados.
A fenotipagem segue ferramentas cardiológicas padrão. O ecocardiograma é o exame de entrada: espessura de parede de 15 mm ou mais em qualquer segmento, não explicada por sobrecarga, define CMH (o limiar cai para 13 mm quando há familiar com CMH ou variante sarcomérica confirmada); a CMD exige FE reduzida com dilatação (FE menor que 45% com diâmetro diastólico aumentado). A ressonância magnética cardíaca caracteriza a distribuição da hipertrofia e a fibrose por realce tardio (padrão difuso subendocárdico sugerindo amiloidose, realce na junção ventricular direita sugerindo CMA, realce do septo basal com espessamento na CMH). O ECG é anormal em mais de 90% dos casos de CMH genotipada, frequentemente antes da hipertrofia franca.
| Ferramenta | Achados e critérios | Rendimento e observações |
|---|---|---|
| Ecocardiograma | CMH: parede de 15 mm ou mais (13 mm com contexto familiar/genético); gradiente de via de saída com manobra de Valsalva | Sensibilidade alta para hipertrofia franca; pode ser normal em jovens portadores antes da expressão do fenótipo |
| Ressonância cardíaca | Padrão de realce tardio, função biventricular, trabeculação e não compactação | Excelente caracterização tissue; realce tardio associa-se a risco arrítmico |
| ECG e Holter | Hipertrofia, ondas Q patológicas, alterações de ST-T, pré-excitação, taquicardia ventricular não sustentada | TV não sustentada no Holter é marcador clássico de risco de morte súbita na CMH |
| Teste genético (painel ou exoma) | Classificação ACMG: patogênica, provavelmente patogênica, VUS, provavelmente benigna, benigna | Rendimento aproximado: CMH 30-60%; CMD 25-40%; CMA 30-60% conforme critérios e ancestralidade |
| Rastreio familiar em cascata | Avaliação clínica (ECG, eco, RM conforme caso) de parentes de primeiro grau; teste genético dirigido se a variante do índice for patogênica | Na CMH, repetir avaliação clínica a cada 1-2 anos em crianças e a cada 2-4 anos em adultos; genético negativo para a variante familiar dispensa seguimento da cardiomiopatia |
| Critérios de CMA (Task Force 2010) | Disfunção regional do ventrículo direito por imagem, biópsia com fibrogordura, repolarização/despolarização anômalas (épsilon, T invertidas em V1-V3), arritmias ventriculares e história familiar/genética | Diagnóstico: 2 maiores, 1 maior e 2 menores, ou 4 menores (critérios maiores e menores por domínio) |
O tratamento tem três camadas: o da doença e sintomas, o da prevenção de morte súbita e o dirigido à causa genética quando tratável. Na CMH obstrutiva sintomática, betabloqueadores em dose alta (propranolol até 320 mg/dia ou metoprolol 100 a 200 mg/dia) ou verapamil 240 a 480 mg/dia são a primeira linha; disopiramida 400 a 800 mg/dia pode ser somada. A inibição da miosina com mavacamten (2,5 a 15 mg/dia, por via oral, com monitoramento ecocardiográfico da fração de ejeção) tornou-se a primeira terapia molecular da doença após o estudo EXPLORER-HCM. Na refratariedade, intervenção de redução septal: miectomia cirúrgica (técnica de Morrow, mortalidade abaixo de 1% em centros de volume) ou ablação septal por álcool.
| Cenário | Conduta e doses de referência | Observações |
|---|---|---|
| CMH obstrutiva sintomática | Propranolol até 320 mg/dia, metoprolol 100-200 mg/dia ou verapamil 240-480 mg/dia; disopiramida 400-800 mg/dia | Evitar vasodilatadores e diuréticos agressivos, que pioram o gradiente; digoxina é evitada |
| CMH obstrutiva refratária | Mavacamten 2,5-15 mg/dia VO; miectomia de Morrow ou ablação septal alcoólica | Miectomia é preferida em jovens com anomalia mitral associada; ablação depende da anatomia coronária |
| Prevenção de morte súbita na CMH | Escore HCM-SCD (5 anos): risco de 6% ou mais indica CDI; entre 4% e 6%, decisão compartilhada | Componentes do escore incluem idade, história familiar de morte súbita, síncope, TV não sustentada, espessura máxima, átrio esquerdo, gradiente e FE |
| CMD com variante de alto risco (LMNA, FLNC, RBM20, DSP) | CDI precoce, avaliar mesmo com FE acima dos limiares usuais em LMNA com bloqueios | Tratamento de base da IC: iECAs/sacubitril-valsartana, betabloqueador, antagonista da aldosterona, iSGLT2 (dapagliflozina 10 mg/dia) |
| CMA | Restrição a esportes competitivos e de alta intensidade; CDI em sobreviventes de parada ou com arritmias sustentadas; evitar esforço isométrico | Betabloqueadores e antiarrítmicos (amiodarona) conforme arritmia; insuficiência cardíaca conforme fenótipo dominante |
| Fabry cardíaca | Agalsidase alfa 0,2 mg/kg IV a cada 2 semanas ou agalsidase beta 1 mg/kg IV a cada 2 semanas; migalastat 123 mg VO em dias alternados para variantes elegíveis | Terapia de reposição enzimática reduz o acúmulo de Gb3; migalastat apenas para variantes elegíveis (chaperone) |
| Danon e doenças graves de início jovem | Discussão precoce de assistência circulatória e transplante cardíaco | Ritmo de deterioração rápido, especialmente em homens com LAMP2 |
As complicações dominantes são a morte súbita arritmica, a progressão para insuficiência cardíaca (incluindo o burn out da CMH, com afinamento da parede e queda da fração de ejeção), a fibrilação atrial com risco embólico (anticoagulação indicada por risco, não por CHA2DS2-VASc isoladamente, na CMH) e a insuficiência cardíaca refratária com indicação de transplante. Genes e variantes estratificam o risco: LMNA, FLNC truncante, RBM20, DSP e variantes múltiplas (mais de uma variante patogênica) conferem risco arritmico elevado; TTNtv confere risco intermediário e fortemente dependente de fatores ambientais; na CMH, mutações malignas históricas (algumas variantes de TNNT2) associam-se a morte súbita com hipertrofia discreta. O diagnóstico familiar precoce e o CDI adequado mudaram a história natural: a mortalidade anual da CMH em centros especializados caiu para cerca de 0,5% a 1%.
1.Gene mais frequentemente mutado na cardiomiopatia hipertrófica e que, com MYH7, responde por cerca de 60-70% dos casos genotipados:
2.O critério ecocardiográfico de espessura para diagnóstico de CMH em paciente sem familiares afetados é:
3.Paciente com CMD, bloqueio atrioventricular de início precoce e história familiar de morte súbita com fração de ejeção ainda pouco reduzida. O gene mais provável e a implicação terapêutica são:
4.Homem de 16 anos com hipertrofia ventricular esquerda grave, pré-excitação (padrão WPW) e miopatia proximal. Suspeita-se de:
5.O teste genético de um paciente com CMH retorna variante de significado incerto (VUS) em MYH7. A conduta correta é:
6.Sobre o rastreio de familiares de primeiro grau de paciente com CMH por variante patogênica em MYBPC3:
7.A primeira terapia molecular aprovada para a CMH obstrutiva sintomática, inibidora seletiva da miosina cardíaca, é:
8.Segundo o escore de risco de morte súbita da CMH (HCM-SCD, ESC), a faixa de risco em 5 anos que formalmente indica implante de cardiodesfibrilador é:
9.Na cardiomiopatia arritmogênica, o gene mais frequentemente envolvido e o fator ambiental classicamente desencadeador de arritmias são:
10.Na doença de Fabry com acometimento cardíaco, o tratamento específico com agalsidase alfa é administrado na dose de:
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