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Análise completa da infertilidade masculina, com foco na avaliação diagnóstica, papel da varicocele e abordagens terapêuticas baseadas em evidências.
[1] Infertilidade masculina: avaliação, varicocele e tratamento. . · DOI 10.36414/rbmc.v11i25.194 | [2] Dhikhirullahi O, Zhang Z. Male infertility. Systems biology in reproductive medicine. 2025 Dec · DOI 10.1080/19396368.2025.2548492 · PMID 41027459 | [3] Jensen CFS, Østergren P, Dupree JM. Varicocele and male infertility. Nature reviews. Urology. 2017 Sep · DOI 10.1038/nrurol.2017.98 · PMID 28675168 | [4] Esteves SC, Zini A, Coward RM. Sperm DNA fragmentation testing: Summary evidence and clinical practice recommendations. Andrologia. 2021 Mar · DOI 10.1111/and.13874 · PMID 33108829 | [5] Shomarufov A B, Bozhedomov V A, Giyasov Sh I.. [Clinical and economic efficiency of varicocelectomy in the treatment of male infertility]. . 2026 · PMID 42742560 | [6] Verstandig A, Farkas A.. Live Birth Rates After Varicocele Embolization in Patients After Failed In Vitro Fertilization With Intracytoplasmic Sperm Injection. . 2026 · DOI 10.1111/andr.70328 · PMID 42593434 · DOI 10.36414/rbmc.v11i25.194
A infertilidade é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a falha de um casal em alcançar a gravidez após um ano de relações sexuais desprotegidas e consistentes. Dentre os casais que buscam avaliação, o fator masculino é responsável por aproximadamente 30% a 50% dos casos, sendo que cerca de 7% de todos os homens em algum momento de suas vidas são considerados inférteis. A infertilidade masculina é uma condição multifatorial, com etiologias que podem ser congênitas ou adquiridas, e muitas vezes sua causa permanece idiopática, mesmo após investigação completa. A avaliação deve ser iniciada simultaneamente no homem e na mulher, pois a identificação de um fator masculino não exclui a possibilidade de um fator feminino associado.
A infertilidade pode ser primária (quando nunca houve gravidez) ou secundária (quando houve gravidez prévia, mesmo que não resultando em parto vivo). A definição de um ano de tentativas é baseada em dados epidemiológicos que indicam que 80-85% dos casais férteis concebem nesse período. A infertilidade masculina não é apenas um problema médico, mas também um desafio psicológico e social, impactando a autoestima do homem e a dinâmica do casal. O diagnóstico correto e o tratamento adequado são fundamentais para oferecer uma solução realista e eficaz ao casal.
A infertilidade masculina afeta uma parcela significativa da população reprodutiva global. Estudos indicam que o estresse psicológico, especialmente quando crônico, representa um dos principais fatores ocupacionais e de estilo de vida associados à disfunção reprodutiva. O estresse crônico pode afetar o sistema reprodutor masculino, levando à alteração do eixo hipotálamo-hipófise-testicular, danos testiculares diretos e comprometimento dos parâmetros seminais, contribuindo para a infertilidade. Outros fatores de risco incluem idade avançada, tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade e exposição a agentes ambientais tóxicos.
A prevalência de infertilidade masculina tem sido associada a uma tendência de declínio na qualidade do sêmen observada nas últimas décadas em várias partes do mundo. A idade do homem é um fator de risco crescente; enquanto a fertilidade é mantida até a idade avançada, a qualidade do DNA espermático tende a diminuir após os 40 anos, aumentando o risco de aborto espontâneo e anomalias cromossômicas no concepto. A obesidade, por sua vez, está ligada a alterações hormonais (aumento de estrogênio e diminuição de testosterona) e ao aumento do estresse oxidativo, que prejudica a espermatogênese.
A classificação da infertilidade masculina é baseada nos resultados do exame de sêmen, considerado o padrão-ouro para avaliação da fertilidade masculina. De acordo com os critérios da OMS, os distúrbios seminais são classificados como oligozoospermia (concentração de espermatozoides abaixo de 15 milhões/mL), astenozoospermia (motilidade progressiva abaixo de 32%), teratozoospermia (percentual de formas normais abaixo de 4%) e azoospermia (ausência total de espermatozoides no ejaculado). A azoospermia pode ser obstrutiva, devido a obstruções do trato seminal, ou não obstrutiva, associada à falha da espermatogênese.
Além da classificação baseada nos parâmetros seminais, a infertilidade masculina pode ser classificada quanto à duração (primária ou secundária) e quanto à causa (congênita, adquirida, idiopática). A classificação da azoospermia é particularmente importante, pois direciona o diagnóstico e o tratamento. A azoospermia não obstrutiva pode ser causada por hipogonadismo, criptorquidia, quimioterapia ou fatores genéticos. Já a azoospermia obstrutiva geralmente resulta de infecções, vasectomia ou anomalias congênitas como a ausência bilateral dos ductos deferentes (síndrome do ducto deferente congênito).
| Alteração Seminal | Critério OMS (2010) | Classificação da Severidade |
|---|---|---|
| Oligozoospermia | < 15 milhões/mL | Leve (10-15), Moderada (5-10), Grave (< 5) |
| Astenozoospermia | < 32% motilidade progressiva | Leve (25-32), Moderada (15-25), Grave (< 15) |
| Teratozoospermia | < 4% de formas normais | Leve (3-4), Moderada (1-3), Grave (< 1) |
| Azoospermia | Ausência total de espermatozoides | Obstrutiva ou Não Obstrutiva |
A fisiopatologia da infertilidade masculina é complexa e envolve múltiplos mecanismos. Em casos de varicocele, um dos fatores mais estudados, o estresse oxidativo é considerado um mecanismo central. A dilatação das veias pampiniformes leva ao aumento da temperatura escrotal e ao refluxo de sangue venoso rico em catecolaminas e radicais livres, causando dano ao DNA espermático e comprometendo a função dos espermatócitos. Além disso, desequilíbrios hormonais, como hipogonadismo hipogonadotrófico ou hipergonadotrófico, e alterações genéticas, como microdeleções do cromossomo Y, podem interromper o processo de espermatogênese.
O estresse oxidativo ocorre quando a produção de espécies reativas de oxigênio (EROs) supera a capacidade antioxidante do plasma seminal. As EROs, como os radicais livres, danificam a membrana plasmática do espermatozoide, a sua mitocôndria e o seu núcleo, levando à perda de função e à morte celular. A cascata fisiopatológica da infertilidade masculina pode ser descrita como uma cadeia de eventos: fator de risco (ex: varicocele) -> aumento do estresse oxidativo e temperatura -> dano celular e ao DNA -> disfunção espermática -> infertilidade. Outros mecanismos incluem a apoptose programada dos espermatozoides e a inflamação do trato genital.
A apresentação clínica do homem infértil é frequentemente assintomática, sendo o principal queixa a dificuldade do casal em conceber após um ano de tentativas. A anamnese deve detalhar o tempo de tentativa, história sexual, frequência e coito programado. É fundamental investigar a história médica prévia, incluindo infecções prévias, cirurgias, trauma ou exposição a fatores ambientais. O exame físico deve avaliar a presença de varicocele, avaliada em graus (I a III), tamanho e consistência dos testículos, e a presença de ductos deferentes e vesículas seminais.
A anamnese deve ser minuciosa e estruturada. Deve-se perguntar sobre a frequência das relações sexuais (idealmente 2-3 vezes por semana), a existência de disfunção erétil ou ejaculação retrógrada, e o uso de medicamentos que podem afetar a fertilidade (ex: anabolizantes, quimioterápicos). A avaliação da função sexual é crucial, pois a disfunção erétil pode ser um marcador de hipogonadismo ou de problemas vasculares. O exame físico inclui a avaliação da região inguinal e escrotal, com o paciente em pé e deitado, para a palpação da varicocele. O volume testicular deve ser avaliado com um orquidômetro, com valores normais acima de 15 mL.
O diagnóstico da infertilidade masculina segue um processo passo a passo. O exame de sêmen, segundo os critérios da OMS 2010, avalia volume, concentração, motilidade e morfologia dos espermatozoides. Caso alterações sejam encontradas, a investigação avança para dosagem hormonal (FSH, LH, testosterona total e livre) e exames de imagem, como ultrassom escrotal para avaliar a varicocele e testículos, e ressonância magnética em casos de suspeita de obstrução. Testes genéticos, como cariótipo e pesquisa de microdeleções do cromossomo Y, são indicados em azoospermia não obstrutiva e oligozoospermia severa.
O exame de sêmen deve ser realizado após um período de abstinência sexual de 2 a 7 dias. É fundamental que a amostra seja coletada em um ambiente laboratorial para garantir sua integridade. A análise deve ser realizada em até uma hora após a coleta. Se o primeiro exame for anormal, a recomendação da OMS é repeti-lo após 2 a 3 semanas, pois os parâmetros seminais podem apresentar variação natural. A dosagem hormonal avalia o eixo hipotálamo-hipófise-testicular: FSH e LH elevados indicam falha testicular primária, enquanto valores baixos sugerem problema hipotalâmico ou hipofisário.
| Exame | Indicação | Valores de Referência |
|---|---|---|
| Exame de Sêmen (OMS 2010) | Avaliação inicial da fertilidade | Volume > 1.5 mL, Concentração > 15 milhões/mL, Motilidade progressiva > 32%, Formas normais > 4% |
| FSH (Hormônio Folículo Estimulante) | Avaliar função testicular | 1.5-12.4 mIU/mL (valores podem variar conforme o laboratório) |
| LH (Hormônio Luteinizante) | Avaliar função testicular | 1.7-8.6 mIU/mL |
| Testosterona Total | Avaliar função testicular | 300-1000 ng/dL |
| Ultrassom Escrotal | Avaliar varicocele, testículos e estruturas adjacentes | Varicocele grau I (palpação apenas em Valsalva), II (palpável em repouso), III (visível) |
| Condição | Características Clínicas | Exames-Chave |
|---|---|---|
| Varicocele | Dilatação venosa escrotal, dor pós-esforço, infertilidade | Ultrassom Doppler colorido |
| Hipogonadismo hipogonadotrófico | Libido baixa, disfunção erétil, ginecomastia | FSH/LH baixos, testosterona baixa |
| Obstrução ductal | História de infecção, vasectomia, volume seminal baixo | US com imagem de ducto dilatado |
| Azoospermia não obstrutiva | Testículos pequenos, FSH elevado | Biópsia testicular |
| Fatores imunológicos | Presença de anticorpos antiespermatozoides | Teste de imunofluorescência |
O diagnóstico diferencial é essencial para direcionar o tratamento corretamente. A varicocele deve ser diferenciada de outras massas escrotais, como hidrocele, espermatocele e tumor de células de Leydig. A azoospermia não obstrutiva deve ser distinguida da obstrutiva, pois o tratamento é radicalmente diferente. A hipogonadismo pode ser primário (testicular) ou secundário (central), e essa diferenciação é feita através dos níveis de FSH e LH. A presença de anticorpos antiespermatozoides é rara e geralmente associada a trauma ou infecção do trato genital.
O tratamento é direcionado à causa identificada. Em casos de hipogonadismo, a terapia de reposição hormonal com testosterona enantato ou cipionato na dose de 50 a 100 mg/semana por via intramuscular pode ser utilizada, mas deve ser evitada em homens que buscam gravidez, pois inibe a espermatogênese. Para varicocele, a correção cirúrgica (varicocelectomia) é indicada para homens com varicocele clinicamente palpável e alterações seminais. A técnica microcirúrgica subinguinal é a mais eficaz, com taxas de recorrência abaixo de 3%. Em casos de infertilidade idiopática, a terapia antioxidante com doses de 200 a 400 mg de coenzima Q10 por dia por 3 meses pode melhorar os parâmetros seminais.
A abordagem terapêutica deve ser individualizada. Para oligozoospermia leve, a correção de fatores modificáveis (parar de fumar, perder peso, reduzir o consumo de álcool) pode ser o primeiro passo. A terapia antioxidante é uma opção para melhorar a qualidade do sêmen, mas a evidência científica é limitada. Em casos de hipogonadismo hipogonadotrófico, a gonadotrofina coriônica (hCG) ou a gonadotrofina menopausal humana (hMG) pode ser usada para estimular a espermatogênese. A escolha do tratamento deve sempre considerar o desejo do casal de gravidez e os recursos disponíveis.
| Causa | Tratamento de Primeira Linha | Dosagem/Via |
|---|---|---|
| Hipogonadismo (busca de gravidez) | Gonadotrofinas (hCG/hMG) | 1500-3000 UI de hCG 3x por semana, SC/IM |
| Hipogonadismo (não busca gravidez) | Testosterona | 50-100 mg/semana de enantato, IM |
| Varicocele com alteração seminal | Varicocelectomia microcirúrgica | Procedimento cirúrgico único |
| Infertilidade idiopática | Terapia antioxidante | 200-400 mg/dia de Coenzima Q10, VO |
| Obstrução ductal | Reconstrução cirúrgica ou aspiração | Vaso-vasostomia ou micro-TESE/TESE |
A varicocele é a causa corrigível mais comum de infertilidade masculina. A indicação para tratamento é baseada na presença de varicocele clinicamente palpável e alterações no exame de sêmen. A varicocelectomia microcirúrgica subinguinal é a técnica de escolha, devido à sua alta eficácia, baixa taxa de complicações e recorrência. Alternativas incluem embolização translumbar, que é menos invasiva e pode ser uma opção para homens com dor ou recidiva após cirurgia. Em homens com infertilidade masculina subfertil e varicocele, a cirurgia melhora os parâmetros seminais e aumenta a chance de gravidez espontânea.
A varicocelectomia microcirúrgica é realizada sob anestesia local ou regional, com ampliação óptica (lupa ou microscópio cirúrgico). A técnica consiste na ligadura das veias espermáticas que drenam o testículo, preservando a artéria e os linfáticos para minimizar complicações como o hidrocele e a dor pós-operatória. A embolização é um procedimento radiológico, onde um cateter é inserido na veia femoral e pequenos coils ou agentes esclerosantes são liberados para ocluir as veias varicosas. A escolha entre as técnicas depende da experiência do centro, do custo e da preferência do paciente.
Quando as terapêuticas convencionais falham, as tecnologias de reprodução assistida são a próxima opção. A inseminação intrauterina (IIU) é indicada para oligozoospermia leve a moderada, com taxa de sucesso de 10 a 20% por ciclo. A fertilização *in vitro* (FIV) com injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI) é o tratamento de escolha para azoospermia, oligozoospermia severa e falha da IIU. A ICSI permite o uso de espermatozoides obtidos por ejaculação, biópsia testicular ou aspiração epididimal. Recentemente, estudos mostram que a embolização de varicocele após falha de FIV/ICSI pode resultar em taxas de nascimento vivo de até 86% em seguimento de 54 meses.
A IIU consiste na capacitação do sêmen em laboratório e na deposição dos espermatozoides diretamente no útero da mulher, no momento da ovulação. É um procedimento menos invasivo e de menor custo em comparação à FIV. A FIV/ICSI envolve a estimulação ovariana da mulher, a coleta dos óvulos, a fertilização de cada óvulo com um único espermatozoide injetado diretamente no seu citoplasma (ICSI) e a transferência dos embriões resultantes para o útero. A ICSI é particularmente útil quando há um número muito baixo de espermatozoides ou quando há problemas de qualidade (motilidade ou morfologia).
| Técnica | Indicação | Taxa de Sucesso (Nascimento Vivo) |
|---|---|---|
| Inseminação Intrauterina (IIU) | Oligozoospermia leve a moderada, disfunção sexual | 10-20% por ciclo |
| FIV/ICSI | Azoospermia, oligozoospermia severa, falha da IIU | 25-35% por ciclo |
| Micro-TESE + ICSI | Azoospermia não obstrutiva | 50-70% de obtenção de espermatozoides |
| MESAESA + ICSI | Obstrução ductal (ex: síndrome do ducto deferente) | 60-80% de obtenção de espermatozoides |
As complicações do tratamento da infertilidade masculina são raras. A varicocelectomia pode causar hidrocele em até 7% dos casos e lesão arterial ou linfática em menos de 1%. O prognóstico da infertilidade masculina depende da causa e da resposta ao tratamento. Homens com oligozoospermia leve e varicocele têm boa chance de gravidez espontânea após correção cirúrgica. Em azoospermia não obstrutiva, a taxa de sucesso da micro-TESE com ICSI é de 60 a 70%. O prognóstico é pior em casos de hipogonadismo irreversível ou falha múltipla de TRA.
O prognóstico deve ser discutido com o casal de forma realista. A idade da mulher é um fator prognóstico crucial na TRA; mulheres acima de 35 anos têm taxas de sucesso significativamente menores. A qualidade do DNA espermático, avaliada pela fragmentação do DNA, também é um preditor de sucesso na fertilização e no desenvolvimento do embrião. Em casos de falha repetida da TRA, a investigação deve ser reavaliada, considerando-se a possibilidade de fator feminão não diagnosticado ou de um fator masculino de gravidade não aparente inicialmente.
A avaliação da infertilidade masculina requer uma abordagem sistemática e baseada em evidências para evitar diagnósticos errados e tratamentos ineficazes. Um erro comum é subestimar a importância do fator masculino, levando a atrasos no diagnóstico e no tratamento. A realização de um exame de sêmen normal não exclui a infertilidade, pois a qualidade do DNA espermático pode estar comprometida. A interpretação dos resultados deve ser feita por um especialista, considerando a variação biológica e a necessidade de repetição dos exames.
1.Qual a definição de infertilidade segundo a OMS?
2.Qual a porcentagem de casos de infertilidade em que o fator masculino é responsável?
3.Qual o exame considerado padrão-ouro para avaliação da fertilidade masculina?
4.Qual o principal mecanismo fisiopatológico associado à varicocele e infertilidade?
5.Qual a técnica cirúrgica mais eficaz para correção de varicocele?
6.Qual a dose recomendada de coenzima Q10 para terapia antioxidante em infertilidade idiopática?
7.Qual a técnica de reprodução assistida indicada para azoospermia obstrutiva?
8.Qual a principal complicação da varicocelectomia microcirúrgica?
9.Qual o tempo mínimo de tentativa de gravidez para indicar investigação de infertilidade?
10.Qual a taxa de sucesso da micro-TESE com ICSI em azoospermia não obstrutiva?
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