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Revisão completa da hipertensão arterial para provas: classificação ESC 2024 e ACC/AHA, técnica de medida, MAPA e MRPA, rastreio de causas secundárias, doses das cinco classes de anti-hipertensivos, metas por população e manejo da crise hipertensiva.
[1] McEvoy JW, McCarthy CP, Bruno RM, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of elevated blood pressure and hypertension. Eur Heart J. 2024;45(38):3912-4018 · DOI 10.1093/eurheartj/ehae178 | [2] Whelton PK, Carey RM, Aronow WS, et al. 2017 ACC/AHA Guideline for the Prevention, Detection, Evaluation, and Management of High Blood Pressure in Adults. Hypertension. 2018;71(6):e13-e115 · DOI 10.1161/HYP.0000000000000065 | [3] Malachias MVB, Souza WKSB, Plavnik FL, et al. 7ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial. Arq Bras Cardiol. 2016;107(3 Supl 3):1-83 · DOI 10.5935/abc.20160140 | [4] SPRINT Research Group. A Randomized Trial of Intensive versus Standard Blood-Pressure Control. N Engl J Med. 2015;373(22):2103-2116 · DOI 10.1056/NEJMoa1511939 | [5] Lewington S, Clarke R, Qizilbash N, et al. Age-specific relevance of usual blood pressure to vascular mortality: a meta-analysis of individual data for one million adults in 61 prospective studies (Prospective Studies Collaboration). Lancet. 2002;360(9349):1903-1913 · DOI 10.1016/S0140-6736(02)11911-8 · DOI 10.1093/eurheartj/ehae178
A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é a elevação sustentada da pressão arterial (PA) confirmada por medidas repetidas ou fora do consultório, e constitui o principal fator de risco modificável para morte prematura no mundo. A Organização Mundial da Saúde estima 1,28 bilhão de adultos entre 30 e 79 anos com HAS; 46% desconhecem a condição e apenas cerca de 21% têm a PA controlada. A HAS responde por aproximadamente metade das mortes por acidente vascular cerebral (AVC) e por um quarto das mortes por doença arterial coronariana. No Brasil, inquéritos nas capitais (Vigitel) mostram prevalência autorreferida em torno de 26 a 28% dos adultos, com controle inadequado na maioria dos diagnosticados. Para a prova, o estudante precisa dominar quatro eixos: limiares diagnósticos no consultório, na MAPA e na MRPA, a técnica correta de medida, as cinco classes de anti-hipertensivos com doses e as metas terapêuticas por população.
Para a Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC 2024) e para a Sociedade Brasileira de Cardiologia (7ª Diretriz Brasileira, 2016), HAS é PA de consultório ≥ 140/90 mmHg, confirmada em visitas repetidas ou por monitorização ambulatorial da PA (MAPA) ou residencial (MRPA). A ESC 2024 criou a categoria intermediária de pressão elevada (PAS 120-139 e/ou PAD 70-79 mmHg), que substitui o antigo termo pré-hipertensão e identifica quem se beneficia de intervenção precoce no estilo de vida, com fármaco em decisão compartilhada se o risco cardiovascular for alto. O guideline norte-americano ACC/AHA 2017 é mais agressivo e define hipertensão estágio 1 a partir de 130/80 mmHg. As três classificações caem em prova, mas a conduta prática segue os limiares comuns.
| Categoria (ESC 2024) | PAS (mmHg) | PAD (mmHg) | Leitura prática |
|---|---|---|---|
| Não elevada | < 120 | < 70 | Reavaliar em até 3 anos se risco baixo |
| Pressão elevada | 120-139 | 70-79 | Estilo de vida; fármaco se risco cardiovascular alto |
| HAS grau 1 | 140-159 | 90-99 | Estilo de vida + fármaco na maioria |
| HAS grau 2 | 160-179 | 100-109 | Início direto com combinação dupla de baixa dose |
| HAS grau 3 | ≥ 180 | ≥ 110 | Avaliação médica rápida; risco de crise hipertensiva |
| HAS sistólica isolada | ≥ 140 | < 90 | Comum no idoso; mesma estratégia terapêutica |
Conceitos funcionais que valem pontos: hipertensão do avental branco (PA elevada no consultório e normal fora dele, presente em 15-30% dos suspeitos), hipertensão mascarada (normal no consultório e elevada no domicílio, com risco cardiovascular semelhante ao da HAS sustentada), hipertensão resistente (PA não controlada com 3 fármacos em doses máximas toleradas, incluindo um diurético, confirmada por MAPA) e hipertensão refratária (não controlada mesmo com 4 fármacos, incluindo espironolactona). Antes de rotular qualquer paciente como resistente, é obrigatório confirmar a adesão ao tratamento, corrigir a técnica de medida e excluir causas secundárias e uso de drogas que elevam a PA.
A prevalência aumenta progressivamente com a idade: abaixo de 10% nos adultos jovens, 30 a 45% na meia-idade e 60 a 75% após os 70 anos. Cerca de dois terços dos portadores no mundo vivem em países de renda baixa ou média, onde o diagnóstico tardio e o acesso limitado aos medicamentos pioram o desfecho. No Brasil, além da prevalência de 26-28% nas capitais por autorrelato, estudos com medida direta da PA encontram frequências de 30 a 40% na população adulta. O dado mecanístico mais cobrado vem da Prospective Studies Collaboration (61 estudos, 1 milhão de adultos): a partir de 115/75 mmHg, cada aumento de 20 mmHg na PAS (ou 10 mmHg na PAD) dobra a mortalidade por AVC e por doença arterial coronariana, em todas as faixas etárias. Por isso a PA é tratada como alvo contínuo de redução de risco, e não como variável de sim ou não.
Cerca de 90 a 95% dos casos são hipertensão primária (essencial), resultado da interação de múltiplos genes com o ambiente (sal, obesidade, álcool, estresse, sedentarismo). O denominador comum é o desajuste do mecanismo renal de natriurese pressórica: o rim passa a exigir PA mais alta para excretar o sódio ingerido, o que expande o volume extracelular e eleva a resistência vascular periférica. Sobre esse eixo atuam os sistemas humormais clássicos, cobrados em prova como cadeia lógica.
O coração responde ao aumento de pós-carga com hipertrofia ventricular esquerda concêntrica; o rim, com hialinose arteriolar e perda progressiva de néfrons; a retina, com arteriolosclerose. Essa cascata explica por que a HAS é assintomática por anos e se revela por evento clínico: a lesão de órgão-alvo é silenciosa e cumulativa.
De 5 a 15% dos hipertensos têm causa identificável e potencialmente tratável. A suspeita deve ser levantada diante de: idade inferior a 30-40 anos sem história familiar, HAS grau 2 ou 3 de início súbito, HAS resistente, piora abrupta de PA antes controlada, crises paroxísticas, hipocalemia espontânea, sopro abdominal, atraso do pulso radiofemoral ou sonolência diurna importante com ronco. A tabela resume as causas que aparecem em prova com o rastreamento adequado.
| Causa secundária | Pistas clínicas | Rastreamento inicial |
|---|---|---|
| Doença renal parenquimatosa | Causa secundária mais comum na população geral; creatinina alterada, hematúria, proteinúria, rins pequenos | Creatinina com taxa de filtração glomerular, sedimento urinário, ultrassonografia renal |
| Estenose de artéria renal | Jovem mulher (displasia fibromuscular) ou idoso aterosclerótico; sopro abdominal; hipocalemia; HAS resistente | Doppler de artérias renais; angio-TC ou angio-RM (confirmar com angiografia se for planejar revascularização) |
| Hiperaldosteronismo primário | Presente em 5-15% das HAS resistentes; hipocalemia com alcalose metabólica, cãibras; adenoma de Conn ou hiperplasia bilateral | Razão aldosterona/renina plasmática e teste confirmatório de sobrecarga salina |
| Feocromocitoma | Tríade paroxística de cefaleia intensa, palpitações e sudorese, com pele pálida; PA lábil | Metanefrinas plasmáticas ou urinárias de 24 horas; TC ou RM de adrenais |
| Apneia obstrutiva do sono | Ronco, apneia presenciada, sonolência diurna, obesidade; padrão não dipper à MAPA | Polissonografia |
| Coarctação da aorta | Jovem com PA muito mais alta nos braços, pulsos femurais fracos, atraso radiofemoral, sopro interescapular | Ecocardiograma ou angio-TC de aorta torácica |
| Síndrome de Cushing | Obesidade central, estrias violáceas, face em lua cheia, hipercatabolismo | Cortisol livre urinário de 24 horas ou teste de supressão com dexametasona |
| Drogas e substâncias | Anti-inflamatórios não esteroides, corticoides, anticoncepcionais orais, ciclosporina, eritropoietina, cocaína, simpatomiméticos, licorice | Anamnese dirigida com suspensão e reavaliação da PA |
A HAS não complicada é assintomática: o diagnóstico nasce da medida rotineira, não da queixa. A cefaleia occipital matinal, quando existe, não guarda correlação com o nível pressórico, e cobrar essa associação é pegadinha clássica. Os sintomas, quando surgem, indicam lesão de órgão-alvo ou crise hipertensiva: dispneia (insuficiência cardíaca), dor precordial (angina ou síndrome coronariana), déficit neurológico focal (AVC), visão borrada (retinopatia), oligúria e edema (doença renal) e claudicação (doença arterial periférica).
A PA de consultório só é válida com técnica padronizada: paciente sentado com costas apoiadas, pés no chão, braço nu apoiado na altura do coração, 5 minutos de repouso prévio, sem cafeína, exercício ou tabaco nos 30 minutos anteriores, bexiga vazia, e manguito com largura de cerca de 80% da circunferência do braço (manguito estreito superestima a PA). Obtenha a média de 2 a 3 medidas com intervalo de 1-2 minutos, e meça nos dois braços na primeira consulta, adotando o braço com PA mais alta. O diagnóstico exige confirmação em visita repetida, MAPA ou MRPA, salvo HAS grau 3 ou crise hipertensiva, em que o risco não permite esperar.
| Método de medida | Limiar diagnóstico de HAS |
|---|---|
| Consultório (média de 2-3 medidas) | ≥ 140/90 mmHg |
| MRPA (média domiciliar de 7 dias) | ≥ 135/85 mmHg |
| MAPA de vigília (período acordado) | ≥ 135/85 mmHg |
| MAPA do sono | ≥ 120/70 mmHg |
| MAPA de 24 horas | ≥ 130/80 mmHg |
As medidas de estilo de vida valem para todas as categorias de PA e têm magnitude de efeito comparável à de um fármaco isolado. Devem ser prescritas por escrito, com metas quantificadas, e mantidas junto com a farmacoterapia.
As classes centrais são quatro: inibidor da ECA (IECA), bloqueador do receptor de angiotensina II (BRA), bloqueador do canal de cálcio dihidropiridínico (BCC) e diurético tiazídico ou tiazídico-like. O betabloqueador entra em qualquer degrau quando existe indicação específica (insuficiência cardíaca, pós-infarto, angina, fibrilação atrial com controle de frequência, taquiarritmias, gestação). A ESC 2024 recomenda iniciar a maioria dos pacientes já com combinação dupla de baixas doses em comprimido único, preferindo IECA ou BRA associado a BCC ou diurético, porque controla a PA mais rápido com menos efeitos adversos e melhora a adesão; a triterapia padrão é IECA ou BRA + BCC + diurético. A combinação IECA + BRA é proibida: aumenta eventos adversos renais sem ganho de controle pressórico.
| Classe | Exemplos e doses orais usuais | Efeitos adversos principais | Observações de prova |
|---|---|---|---|
| IECA | Enalapril 10-40 mg/dia em 2 tomadas; ramipril 2,5-10 mg/dia; captopril 25-150 mg/dia | Tosse seca (5-20%), hipercalemia, angioedema, teratogenicidade | Contraindicado na gestação e na estenose bilateral de artéria renal; suspender imediatamente se a paciente engravidar |
| BRA | Losartana 50-100 mg/dia; valsartana 80-320 mg/dia; olmesartana 10-40 mg/dia | Hipercalemia e disfunção renal, sem a tosse | Alternativa ao IECA quando há tosse; mesmas contraindicações obstétricas |
| BCC dihidropiridínico | Anlodipino 5-10 mg/dia; nifedipino de liberação prolongada 30-90 mg/dia | Edema de tornozelo dose-dependente, rubor facial, cefaleia | O edema melhora com a associação a IECA ou BRA; nifedipino prolongado é opção na gestação |
| Diurético tiazídico e tiazídico-like | Hidroclorotiazida 12,5-25 mg/dia; clortalidona 12,5-25 mg/dia; indapamida 1,5-2,5 mg/dia | Hipocalemia, hiponatremia, hiperuricemia e gota, hiperglicemia | Clortalidona e indapamida têm ação mais prolongada e preferência atual; monitorar sódio, potássio e ácido úrico |
| Betabloqueador | Bisoprolol 2,5-10 mg/dia; carvedilol 12,5-50 mg/dia; metoprolol succinato 50-200 mg/dia | Bradicardia, broncoespasmo, fadiga, mascaramento de hipoglicemia, disfunção erétil | Não é primeira linha na HAS não complicada sem indicação específica (insuficiência cardíaca, pós-infarto, angina, fibrilação atrial) |
| Espironolactona | 25-50 mg/dia | Ginecomastia e mastalgia, hipercalemia, acidose metabólica | Melhor quarto fármaco da HAS resistente (estudo PATHWAY-2); monitorar potássio e creatinina em 1-4 semanas |
Crise hipertensiva é PAS ≥ 180 e/ou PAD ≥ 120 mmHg. É emergência quando há lesão aguda de órgão-alvo: encefalopatia hipertensiva, edema agudo de pulmão, síndrome coronariana aguda, dissecção de aorta, AVC isquêmico extenso ou hemorrágico, eclampsia. É urgência quando a PA é muito alta sem dano agudo: manejo oral, com redução gradual em 24-48 horas. Na emergência, reduzir no máximo 25% da pressão arterial média na primeira hora e, a seguir, visar 160/100-110 mmHg em 2-6 horas, normalizando em 24-48 horas. As exceções que caem em prova: dissecção aguda de aorta exige PAS menor que 120 mmHg em cerca de 20 minutos, com betabloqueador antes do vasodilatador; AVC isquêmico sem plano de trombólise tolera até 220/120 mmHg, e com trombólise trata-se a PA acima de 185/110 mmHg.
| Fármaco intravenoso | Dose | Indicação preferencial |
|---|---|---|
| Nicardipino | 5-15 mg/h, titulando a cada 5-15 minutos | Maioria das emergências; hipertensão pós-AVC; dissecção (sempre após betabloqueador) |
| Labetalol | 20-80 mg EV em bólus a cada 10 minutos ou infusão de 0,5-2 mg/min | Emergências com taquicardia, dissecção de aorta e emergência hipertensiva na gestação |
| Nitroprussiato de sódio | 0,25-10 mcg/kg/min | Hipertensões críticas refratárias; risco de toxicidade por cianeto, limitar o tempo de uso |
| Nitroglicerina | 5-200 mcg/min | Síndrome coronariana aguda e edema agudo de pulmão |
| Esmolol | Bólus de 500 mcg/kg seguido de 50-300 mcg/kg/min | Dissecção de aorta e emergências cirúrgicas, por ter meia-vida ultracurta |
As complicações definem a história natural: AVC isquêmico e hemorrágico (a HAS é o principal fator de risco modificável), doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada ou reduzida, doença renal crônica progressiva até diálise, retinopatia hipertensiva, aneurisma e dissecção de aorta e fibrilação atrial. O prognóstico depende do controle: cada redução de 10 mmHg na PAS traduz-se em cerca de 20% menos eventos cardiovasculares maiores. O seguimento preconiza reavaliação em 1-4 semanas após cada mudança de esquema até atingir a meta e, depois, consultas a cada 3-6 meses, com creatinina, eletrólitos e glicemia ao menos anuais, MAPA periódica para confirmar o controle e revisão sistemática da adesão, porque a má adesão responde pela maioria dos casos rotulados como HAS resistente.
1.Paciente de 52 anos, sem queixas, realiza MAPA que mostra média de vigília de 138/86 mmHg e média do sono de 118/68 mmHg. Como classificar?
2.Homem de 58 anos, diabetes tipo 2 com albuminúria de 300 mg/g e PA de 150/92 mmHg em duas consultas. Qual a melhor conduta farmacológica inicial?
3.Gestante de 26 semanas com PA de 154/98 mmHg em duas medidas. Qual fármaco é CONTRAINDICADO?
4.Mulher com HAS confirmada por MAPA permanece com PA de 152/88 mmHg usando losartana 100 mg, anlodipino 10 mg e hidroclorotiazida 25 mg, todos com adesão confirmada. Qual o próximo passo?
5.Qual das situações abaixo configura EMERGÊNCIA hipertensiva (e não urgência)?
6.Qual a regra de redução da PA na primeira hora de uma emergência hipertensiva?
7.Homem de 60 anos, PA de 168/104 mmHg confirmada por MRPA. Pela classificação da ESC 2024/SBC, qual o estágio?
8.Paciente usando enalapril 20 mg 2 vezes ao dia desenvolve tosse seca persistente e PA controlada. Qual a conduta?
9.Homem de 55 anos chega com dor torácica dilacerante irradiada para o dorso, PA de 210/120 mmHg nos dois braços e FC de 118 bpm; a angio-TC mostra dissecção de aorta tipo A. Qual a sequência correta do tratamento anti-hipertensivo?
10.Mulher de 28 anos com PA de 156/96 mmHg em três consultas, hipocalemia de 2,9 mEq/L e alcalose metabólica, sem edema. Qual o exame de rastreio indicado?
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