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Revisão completa da fisiologia cardiovascular: propriedades do músculo cardíaco, sistema de condução com velocidades e funny current, ciclo cardíaco fase por fase com volumes e pressões, bulhas, débito cardíaco e índice cardíaco, curva pressão-volume, lei de Frank-Starling no nível sarcomérico e regulação da pressão arterial de curto e longo prazo, com aplicação clínica aos tipos de choque e aos fármacos cardiovascularos.
[1] Hall JE, Hall ME. Guyton e Hall — Tratado de Fisiologia Médica. 14ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2021 · ISBN 978-85-95158-61-0 (capítulos 9 a 14 e 17 a 19) | [2] Levick JR. An Introduction to Cardiovascular Physiology. 5ª ed. London: Hodder Arnold; 2010 · ISBN 978-0-340-94204-8 | [3] DiFrancesco D. The role of the funny current in pacemaker activity. Circulation Research. 2010;106(3):434-446 · DOI 10.1161/CIRCRESAHA.109.208041 · PMID 20167941 | [4] Evans L, Rhodes A, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Critical Care Medicine. 2021;49(8):e1063-e1143 · DOI 10.1097/CCM.0000000000005337 | [5] Herring N, Paterson DJ. Levick's Introduction to Cardiovascular Physiology. 6ª ed. Boca Raton: CRC Press; 2018
O sistema cardiovascular é uma bomba em série com dois circuitos: o coração direito movimenta o sangue pelos pulmões (circulação pulmonar, pressões baixas) e o esquerdo pelos tecidos (circulação sistêmica). A função final é gerar um débito cardíaco de 4 a 8 litros por minuto em repouso, capaz de manter uma pressão arterial média de cerca de 90 a 100 mmHg, e multiplicar essa entrega de oxigênio por até sete vezes no exercício máximo. Cada componente desse sistema é cobrado em prova com números: as propriedades do músculo cardíaco, a velocidade de condução de cada segmento do sistema elétrico, os volumes e pressões das sete fases do ciclo cardíaco, a origem das quatro bulhas, a curva pressão-volume ventricular (onde pré-carga, pós-carga e contratilidade aparecem separadamente), o mecanismo sarcomérico da lei de Frank-Starling e os mecanismos de regulação da pressão arterial em segundos (barorreflexo), minutos (quimiorreceptores e resposta isquêmica central) e dias a anos (sistema renina-angiotensina-aldosterona, ADH, peptídeos natriuréticos e pressão natriurética renal). A tradução clínica imediata está na leitura hemodinâmica dos tipos de choque e no ponto de ação dos fármacos usados na emergência — noradrenalina, dobutamina, furosemida, inibidores da ECA e digoxina. Este artigo percorre toda essa cadeia do potencial de marcapasso ao choque, com os valores que resolvem questões.
O miocárdio working é músculo estriado de contração involuntária, com estrias e discos intercalares que abrigam junções comunicantes (gap junctions). Quatro propriedades fundamentais organizam todo o tema — automatismo, exitabilidade, condutividade e contratilidade. Automatismo (autoexcitabilidade): a capacidade de gerar despolarizações rítmicas espontâneas sem estímulo nervoso, própria das células marcapasso (nódulo sinoatrial, com frequência inerente de 60 a 100 despolarizações por minuto, contra 40 a 60 do nódulo atrioventricular e 15 a 40 do sistema de Purkinje); o marcapasso mais rápido domina e suprime os demais por superssressão por taquicardia (overdrive suppression). Exitabilidade (excitabilidade): a capacidade de responder a estímulos com mudança rápida do potencial de membrana; no miócito working o potencial de ação tem fases bem definidas — fase 0 de despolarização rápida pelo influxo de sódio pelos canais rápidos, fase 1 de repolarização inicial (efluxo de potássio pelo componente transitório), fase 2 de platô mantida pelo influxo de cálcio pelos canais L (a marca do miócito cardíaco, que prolonga a contração e evita tetania), fase 3 de repolarização pelo efluxo de potássio e fase 4 de potencial de repouso estável de aproximadamente −85 mV. Condutividade: a propagação do impulso de célula a célula pelas gap junctions, com velocidades que variam mais de cem vezes entre os segmentos. Contratilidade (inotropismo): a força de contração para uma mesma pré-carga, modulada pelo cálcio intracelular disponível.
O impulso nasce no nódulo sinoatrial, no epicárdio da parede lateral do átrio direito, dissemina-se pelos átrios (músculo atrial comum a 0,3-0,5 m/s e vias internodais preferenciais mais rápidas), sofre o atraso fisiológico no nódulo atrioventricular e atinge a musculatura ventricular pelos ramos do feixe de His e pela rede de Purkinje. O atraso no nó atrioventricular (cerca de 0,09 s no nó e mais 0,04 s no feixe penetrante; cerca de 0,16 s do sinoatrial ao ventrículo) é a peça funcional do sistema: garante que os átrios esvaziem antes do início da sístole ventricular e limita a frequência ventricular nas taquiarritmias atriais. A via de entrada do nódulo AV conduz a apenas 0,03-0,05 m/s — a mais lenta do coração —, enquanto o sistema His-Purkinje conduz de 1,5 a 4 m/s — a mais rápida —, de modo que a despolarização ventricular é quase simultânea nos dois ventrículos em menos de 0,08 s, permitindo contração sincrônica e eficiente.
| Estrutura | Velocidade de condução | Comentário funcional |
|---|---|---|
| Nódulo sinoatrial | 0,03-0,05 m/s | Marcapasso dominante; frequência inerente 60-100/min |
| Músculo atrial comum | 0,3-0,5 m/s | Ativação dos átrios em ≈ 0,10 s |
| Vias internodais preferenciais | ≈ 1 m/s | Encurtam o trajeto sinoatrial-atrioventricular |
| Via de entrada do nódulo AV | 0,03-0,05 m/s | Atraso fisiológico ≈ 0,09 s; filtra taquicardias atriais |
| Feixe de His e Purkinje | 1,5-4 m/s | Ativação ventricular quase instantânea (< 0,08 s) |
| Músculo ventricular | 0,3-0,5 m/s | Propagação célula a célula das gap junctions |
O potencial de marcapasso é o potencial de ação das células nodais, e sua assinatura é a despolarização diastólica lenta (fase 4 ascendente) que leva o potencial do valor máximo diastólico (−55 a −60 mV) ao limiar de −40 mV, gerando o disparo espontâneo. A corrente responsável é a funny current (If), descrita por Dario DiFrancesco: uma corrente de sódio (com componente de potássio) ativada por hiperpolarização — quanto mais negativo o potencial ao fim da repolarização, mais canais HCN (hyperpolarization-activated cyclic nucleotide-gated) se abrem — e modulada positivamente pelo AMPc. Ao longo da fase 4 somam-se o fechamento progressivo dos canais de potássio e a abertura dos canais de cálcio tipo T; a fase 0 nodal, ao contrário do miócito work, é dependente de cálcio (canais L), lenta e sem componente sódio rápido. A regulação autonômica explora exatamente esse maquinário: a noradrenalina beta-adrenérgica eleva o AMPc, aumenta a If e a inclinação da diástole (efeito cronotrópico positivo), enquanto a acetilcolina muscarínica abre canais de potássio GIRK, hiperpolariza a célula e reduz o AMPc (cronotropismo negativo). A ivabradina bloqueia seletivamente a If e reduz a frequência cardíaca sem prejudicar a contratilidade — aplicação clínica direta do mecanismo, indicada na insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida e em angina estável.
O ciclo cardíaco é a sequência de eventos elétricos, pressóricos e volumétricos de um batimento. A 75 batimentos por minuto, o ciclo dura 0,8 segundo, distribuídos em sístole atrial (0,1 s), sístole ventricular (0,3 s) e diástole ventricular (0,5 s). Volumes de referência do ventrículo esquerdo: volume diastólico final (pré-carga anatômica) de 120 a 130 mL, volume sistólico final de 50 a 60 mL, volume sistólico de aproximadamente 70 mL e fração de ejeção de 55 a 70% (limiar inferior normal de 55%). Pressões de referência: átrio esquerdo com média de 4 a 8 mmHg, pressão diastólica final ventricular de 5 a 8 mmHg, pico sistólico ventricular de 120 a 130 mmHg e aorta de 120/80 mmHg (média ≈ 100 mmHg). O diagrama de Wiggers ordena as fases: contração isovolumétrica, ejeção rápida, ejeção reduzida, relaxamento isovolumétrico, enchimento rápido, diástase (enchimento lento) e sístole atrial.
| Fase | Válvulas AV / sigmoideas | Volume ventricular | Evento pressórico típico |
|---|---|---|---|
| Contração isovolumétrica (0,02-0,05 s) | Fechadas / fechadas | Constante (VDF 120-130 mL) | Pressão ventricular sobe de 5-8 até exceder a diastólica aórtica (80 mmHg); primeira bulha (B1) e onda c na curva venosa |
| Ejeção rápida (≈ 0,11 s) | Fechadas / abertas | Cai de 120-130 para ≈ 80-90 mL | Pressão ventricular e aórtica sobem juntas até o pico (120-130 mmHg); cerca de 70% do volume sistólico sai aqui |
| Ejeção reduzida (≈ 0,13 s) | Fechadas / abertas | Cai até o volume sistólico final (50-60 mL) | Pressão começa a cair; a onda T do ECG encerra a sístole elétrica antes do fechamento sigmoideu |
| Relaxamento isovolumétrico (0,06-0,08 s) | Fechadas / fechadas | Constante (VSF 50-60 mL) | Pressão ventricular despencam abaixo da atrial; segunda bulha (B2) e incisura dícrota na aorta |
| Enchimento rápido (≈ 0,11 s) | Abertas / fechadas | Sobe rapidamente para ≈ 100-110 mL | Gradiente atrioventricular de 4-8 mmHg; terceira bulha (B3) audível na sobrecarga de volume |
| Diástase ou enchimento lento (≈ 0,19 s) | Abertas / fechadas | Sobe lentamente até ≈ 110-120 mL | Pressões quase equalizadas; única fase que encurta proporcionalmente na taquicardia |
| Sístole atrial (0,1 s) | Abertas / fechadas | Completa o VDF (120-130 mL) | Onda a atrial; quarta bulha (B4) quando o ventrículo é rígido; a sístole atrial contribui com 20-30% do enchimento em repouso |
Dois detalhes resolvem questões sofisticadas. Primeiro, o volume ejetado é gerado em duas fases: cerca de 70% na ejeção rápida e 30% na ejeção reduzida; a ejeção só cessa quando a pressão ventricular cai abaixo da aórtica, com o fechamento sigmoideu iniciando o relaxamento isovolumétrico — período em que todas as válvulas estão fechadas e o volume é o menor do ciclo. Segundo, nas fases isovolumétricas nenhuma válvula se abre, mas o formato do ventrículo muda: na contração isovolumétrica há apertamento do ventrículo com desenrolar da geometria; na ausculta, os eventos valvulares marcam as bulhas — o fechamento mitral e tricúspideo abre B1 e o fechamento aórtico e pulmonar abre B2, sempre na transição entre fases, nunca no pico pressórico.
| Bulha | Momento do ciclo | Mecanismo de origem | Interpretação clínica |
|---|---|---|---|
| B1 | Início da contração isovolumétrica | Fechamento das válvulas mitral e tricúspidea e vibração do aparelho valvar e paredes | Intensa no ápice; amplia-se na febre e encurtamento do PR; abafada na insuficiência mitral |
| B2 | Início do relaxamento isovolumétrico | Fechamento das válvulas aórtica e pulmonar | Componente aórtico precede o pulmonar; desdobramento fisiológico na inspiração (aumento do retorno venoso direito) |
| B3 | Início do enchimento rápido | Vibração das paredes ventriculares pelo influxo rápido de sangue | Normal em crianças, jovens e gestantes; no adulto sugere sobrecarga de volume e insuficiência cardíaca (galope protodiastólico) |
| B4 | Sístole atrial | Contrção atrial contra ventrículo rígido e pouco complacente | Praticamente sempre patológica no adulto (hipertrofia, isquemia, estenose aórtica); ausente na fibrilhação atrial, que elimina a contração atrial organizada |
Débito cardíaco (DC) é o volume de sangue ejetado por minuto por cada ventrículo: DC = frequência cardíaca (FC) × volume sistólico (VS). Em repouso, FC de 60 a 100 batimentos por minuto e VS de cerca de 70 mL geram de 4 a 8 L/min (valor típico 5 L/min), igual nos dois ventrículos pela lei de Starling do coração inteiro — qualquer desequilíbrio crônico entre os débitos produz congestão. Como o DC varia com o tamanho corporal, compara-se o índice cardíaco (DC dividido pela área de superfície corporal), com faixa normal de 2,5 a 4,0 L/min/m² — valores abaixo de 2,2 definem síndrome de baixo débito clínica. A reserva cardíaca permite elevar o DC a 25-35 L/min no atleta em esforço máximo (4 a 7 vezes o repouso), por aumento simultâneo de FC (até cerca de 170-180/min pelo cronotropismo simpático), de VS (maior pré-carga pelo retorno venoso, maior contratilidade e menor pós-carga periférica) e de extração periférica de oxigênio. O VS, por sua vez, é definido por quatro variáveis: pré-carga (volume e estiramento das fibras ao fim da diástole), contratilidade (força por unidade de estiramento), pós-carga (tensão ou pressão contra a qual o ventrículo ejeta) e a contribuição atrial ao enchimento.
A curva pressão-volume ventricular desenha o ciclo em um gráfico com pressão no eixo vertical e volume no horizontal, formando o loop cardíaco. Partindo do ponto de fechamento mitral (volume diastólico final, pressão diastólica final), a contração isovolumétrica é um segmento vertical ascendente a volume constante; a ejeção é o arco superior descrito quando a válvula aórtica abre (pressão acima de 80 mmHg) e segue até o ponto de fechamento aórtico (volume sistólico final); o relaxamento isovolumétrico é o segmento vertical descendente; o enchimento é a curva inferior de retorno ao volume diastólico final, que se aproxima da relação pressão-volume diastólica passiva (curva de complacência). A largura do loop é o volume sistólico; a área interna é o trabalho externo do ventrículo. Duas linhas ancoram a leitura: a linha de contração final sistólica (ESPVR), cuja inclinação é a elastância (contratilidade) do ventrículo, e a curva de enchimento diastólico, cuja posição define a complacência.
| Determinante | Como aparece na curva | Consequência no volume sistólico |
|---|---|---|
| Pré-carga | Loop desloca-se para a direita ao longo da curva de enchimento (maior VDF) | Aumenta o VS pelo mecanismo de Frank-Starling (loop mais largo) |
| Pós-carga | Pressão aórtica de abertura mais alta: ejeção encurtada, loop mais estreito e alto | Reduz o VS e eleva o volume sistólico final; desloca o ponto de fechamento aórtico para a direita |
| Contratilidade | Rotação da ESPVR para cima e para a esquerda (maior inclinação) | Aumenta o VS e reduz o volume sistólico final no mesmo VDF |
| Complacência reduzida (ventrículo rígido) | Curva de enchimento deslocada para cima e para a esquerda | Menor VDF para a mesma pressão de enchimento; contribuição atrial mais importante (B4) |
A lei de Frank-Starling (regulação heterométrica) afirma que, dentro de limites fisiológicos, quanto maior o comprimento da fibra muscular cardíaca ao fim da diástole, maior a força de contração da sístole seguinte — o coração ejeta o que recebe. O mecanismo é sarcomérico e tem duas componentes: primeiro, o comprimento ótimo de sobreposição actina-miosina é de 2,2 micrômetros; o coração em repouso trabalha com sarcômeros de 1,8-1,9 micrômetros, ou seja, na porção ascendente da curva comprimento-tensão, e o enchimento diastólico aproxima as fibras do ótimo de 2,2 micrômetros, aumentando o número de pontes cruzadas disponíveis; segundo, e mais importante quantitativamente, o estiramento aumenta a sensibilidade do sítio de cálcio da troponina C (ativação dependente de comprimento) e aproxima o retículo sarcoplasmático da membrana, ampliando a liberação de cálcio por estímulo. Acima de 2,2 micrômetros a sobreposição das fibras cai e a força diminui — o ramo descendente, pouco atingível no coração normal, torna-se relevante na dilatação extrema (miocardiopatia dilatada, insuficiência mitral grave), em que o coração opera além do pico da curva e o volume sistólico cai apesar do maior VDF. Corolário clássico: o débito dos dois ventrículos se iguala por essa lei — se o retorno venoso aumenta de um lado, o estiramento compensatório eleva o débito do outro, corrigindo transitoriamente desequilíbrios de ejeção.
A pressão arterial média (PAM ≈ pressão diastólica + 1/3 da pressão de pulso) é o produto do débito cardíaco pela resistência vascular periférica (PAM = DC × RVP), e o organismo a regula em escalas de tempo distintas. O mecanismo mais rápido é o barorreflexo, com latência de segundos: barorrecetores de alta pressão situados no seio carotídeo (inervados pelo nervo de Hering, ramo do gloss faríngeo, par IX) e no arco aórtico (nervo do aorta, ramo do vago, par X) disparam proporcionalmente ao estiramento da parede, com maior sensibilidade entre 60 e 180 mmHg. Uma queda aguda da PA reduz a descarga barorrecetora, o que disinibe o centro vasomotor bulbar: aumenta o tônus simpático (vasoconstrição arteriolar e venosa, taquicardia e inotropismo positivos) e reduz o vagal — pressão restaurada em 2 a 3 ciclos cardíacos. O reflexo tem dois limites clássicos: adapta-se (resetting) em 1 a 2 dias ao novo nível de pressão, razão pela qual não explica a hipertensão crônica, e responde a variações dinâmicas da pressão mais do que a valores absolutos. Complementam o curto prazo os quimiorrecetores periféricos (corpos carotídeos e aórticos), ativados quando a PaO2 cai abaixo de 60 mmHg ou por acidose e hipercapnia, que além da resposta ventilatória ativam o centro vasomotor; e a resposta isquêmica central, a última linha de defesa: quando a PAM cai abaixo de cerca de 60 mmHg, a isquemia do centro vasomotor bulbar desencadeia descarga simpática máxima, com vasoconstrição extrema, capaz de elevar a PA de forma dramática enquanto houver reserva — a sua falência explica a liberação de ácido e a vasoplegia terminal do choque prolongado.
O controle de longo prazo da PA é renal e passa pelo equilíbrio entre ingestão e excreção de sódio e água. A peça endócrina central é o sistema renina-angiotensina-aldosterona (RAAS), passo a passo: 1) estímulos trifásicos — queda da perfusão renal (barorrecetor intrarrenal na arteríola aferente), diminuição de NaCl chegada à mácula densa e estimulação beta-1 simpática — fazem as células justaglomerulares da arteríola aferente secretarem renina; 2) a renina cliva o angiotensinogênio hepático em angiotensina I (decapeptídeo inativo); 3) a enzima conversora de angiotensina (ECA), abundante no endotélio pulmonar, converte a angiotensina I em angiotensina II (octapeptídeo ativo) — e degrada bradicinina, daí a tosse seca e o angioedema dos inibidores da ECA; 4) a angiotensina II, atuando no receptor AT1, promove vasoconstrição arteriolar generalizada (eleva a RVP), constrição preferencial da arteríola eferente renal (mantém a taxa de filtração glomerular na hipoperfusão), estimula a liberação de aldosterona pelo córtex adrenal (zona glomerulosa), libera ADH e estimula a sede, facilita a transmissão simpática e reabsorve sódio diretamente no túbulo proximal; 5) a aldosterona ativa no túbulo coletor o canal de sódio ENaC e a Na-K-ATPase basolateral, retendo sódio (e água) e excretando potássio e hidrogênio — hipocalemia e alcalose metabólica do hiperadosteronismo. A contra-regulação cabe ao peptídeo natriurético atrial (ANP/ANF, liberado pelo estiramento atrial) e ao BNP ventricular: natriurese, vasodilatação, inibição da renina e da aldosterona; além do valor diagnóstico de prognóstico na insuficiência cardíaca. A ADH (vasopressina), além do controle de osmolalidade, é pressórica: em queda intensa da PA (via barorrecetores) libera-se ADH que ativa receptores V1 (vasoconstrição) e V2 (aquaporina-2 e retenção de água).
O conceito unificador de longo prazo é a pressão natriurética e diurética de Guyton: um aumento da PA eleva a excreção renal de sódio e água (natriurese de pressão), reduzindo o volume extracelular e, com ele, o débito cardíaco, até que a PA retorne ao ponto de equilíbrio em que a excreção iguala a ingestão — a chamada ganho infinito do mecanismo renal-liquídico, único capaz de retornar a PA ao valor basal a longo prazo sem necessidade de sinal contínuo. Quando a curva de função renal se desloca para a direita (doença renal intrínseca, excesso de angiotensina II ou de aldosterona), o equilíbrio se dá em pressões mais altas: é o fundamento da hipertensão sensível ao sal e a razão fisiológica de os diuréticos e os bloqueadores do RAAS serem anti-hipertensivos de longo prazo, enquanto o barorreflexo e a noradrenalina são pontuais.
| Mecanismo | Latência | Ação dominante | Alvo farmacológico exemplar |
|---|---|---|---|
| Barorreflexo carotídeo e aórtico | Segundos | Ajuste rápido de RVP, FC e inotropismo | Sem alvo crônico — sofre resetting |
| Quimiorreceptores e resposta isquêmica central | Segundos a minutos | Descarga simpática na hipoxemia e na hipotensão grave | Suporte pressórico de emergência |
| RAAS | Minutos a horas (ação mantida por dias) | Vasoconstrição + retenção de sódio e água | IECA, BRA, espironolactona, inibidor direto de renina |
| ADH | Minutos (V1) e horas (V2) | Vasoconstrição e retenção de água | Tolvaptan (antagonista V2); terlipressina (análogo V1) |
| ANP/BNP | Minutos | Natriurese, vasodilatação, inibição do RAAS | Sacubitrila (inibe a neprilisina, aumentando os peptídeos natriuréticos) |
| Pressão natriurética renal (Guyton) | Horas a dias | Excreção de Na e água proporcional à PA | Diuréticos; restrição de sódio |
A fisiologia estudada se materializa na leitura hemodinâmica do paciente crítico com pressão venosa central (PVC), pressão de capilar pulmonar (PCP ou pressão de oclusão da artéria pulmonar), débito cardíaco e resistência vascular periférica calculada. O volume sistólico cai em todos os choques, mas por caminhos diferentes: falta de volume (hipovolêmico), falha de bomba (cardiogênico), vasoplegia com pooling venoso (distributivo) ou impedimento mecânico ao enchimento ou à ejeção (obstrutivo). O choque séptico do guidelines da Surviving Sepsis Campaign ilustra o perfil distributivo: vasoplegia com RVP baixa, PCP baixa ou normal, débito cardíaco aumentado (com disfunção biventricular concomitante) e hipoxemia por shunt periférico — por isso a noradrenalina é o vasopressor de primeira linha após reposição volêmica, corrigindo a variável dominante (RVP).
| Variável | Hipovolêmico | Cardiogênico | Séptico (distributivo) | Obstrutivo (tamponamento/TEP) |
|---|---|---|---|---|
| Volume sistólico | Baixo | Baixo | Baixo (apesar do DC alto, por FC elevada e complacência) | Baixo |
| PCP | Baixa | Alta | Baixa ou normal | Alta no tamponamento; normal ou alta no TEP com falha direita |
| RVP | Alta (vasoconstrição compensatória) | Alta | Baixa (vasoplegia mediada por óxido nítrico) | Alta |
| Débito cardíaco | Baixo | Baixo | Alto (perfil hiperdinâmico) ou baixo na falência estabelecida | Baixo |
| PVC | Baixa | Alta | Baixa ou normal | Alta (distensão venosa sistêmica) |
| Fármaco | Receptor/mecanismo | Variável hemodinâmica dominante | Uso representativo |
|---|---|---|---|
| Noradrenalina | Agonista alfa-1 (com beta-1 modesto) | Eleva RVP e PAM; mantém VS pela perfusão coronária | Vasopressor de primeira linha do choque séptico e da hipotensão vasoplégica |
| Dobutamina | Agonista beta-1 > beta-2 | Eleva contratilidade e DC; leve queda de RVP | Baixo débito com PA preservada; choque cardiogênico combinado a vasopressor |
| Furosemida | Inibidor do cotransportador Na-K-2Cl da alça | Reduz pré-carga (venodilatação precoce e diurese) e PCP | Congestão da insuficiência cardíaca descompensada |
| Inibidores da ECA | Bloqueio da conversão angiotensina I em II | Reduz RVP e aldosterona; remodelamento e mortalidade na ICER | Insuficiência cardíaca com fração reduzida, hipertensão, nefroproteção no diabetes |
| Digoxina | Inibidor da Na-K-ATPase | Aumenta cálcio intracelular (inotropismo) e retarda o nó AV por ação vagal | Controle da frequência na fibrilhação atrial; ICER selecionada |
1.Qual segmento do sistema de condução cardíaco apresenta a MENOR velocidade de condução, e qual a consequência funcional desse fato?
2.A corrente funny (If) das células marcapasso tem qual natureza e qual estímulo a ativa?
3.A primeira bulha cardíaca (B1) coincide com qual evento do ciclo cardíaco?
4.Sobre B3 e B4, assinale a correta:
5.O pico da relação comprimento-tensão do sarcômero cardíaco ocorre em qual comprimento, e qual o mecanismo dominante do efeito de Frank-Starling em comprimentos fisiológicos?
6.Paciente com FC de 80 bpm e volume sistólico de 85 mL. Qual o débito cardíaco e a classificação do valor?
7.Qual perfil hemodâmico caracteriza o choque séptico após reposição volêmica adequada?
8.Qual a latência e a principal limitação do barorreflexo carotídeo e aórtico no controle da pressão arterial?
9.Paciente iniciando captopril desenvolve tosse seca persistente. Qual o mecanismo fisiológico direto desse efeito adverso?
10.Qual fármaco reduz simultaneamente a pré-carga nos primeiros minutos de infusão por venodilatação e, em seguida, pela diurese osmótica-salina do segmento grosso ascendente?
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