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Revisão completa da endocardite infecciosa para provas: classificação, microbiologia, critérios de Duke modificados com sensibilidade dos métodos de imagem, esquemas antimicrobianos com doses e duração, indicações e momento da cirurgia e profilaxia segundo ESC 2023.
[1] Delgado V, Ajmone Marsan N, Habib G, et al. 2023 ESC Guidelines for the management of endocarditis. Eur Heart J. 2023;44(39):3948-4042 · DOI 10.1093/eurheartj/ehad193 | [2] Baddour LM, Wilson WR, Bayer AS, et al. Infective Endocarditis in Adults: Diagnosis, Antimicrobial Therapy, and Management of Complications. Circulation. 2015;132(15):1435-1486 · DOI 10.1161/CIR.0000000000000296 | [3] Li JS, Sexton DJ, Mick N, et al. Proposed Modifications to the Duke Criteria for Infective Endocarditis. Clin Infect Dis. 2000;31(3):633-638 · DOI 10.1086/313936 | [4] Cahill TJ, Prendergast BD. Infective endocarditis. Lancet. 2016;387(10021):882-893 · DOI 10.1016/S0140-6736(15)00067-7 | [5] Iversen K, Ihlemann N, Gill SU, et al. Partial Oral versus Intravenous Antibiotic Treatment of Endocarditis (POET). N Engl J Med. 2019;380(5):415-424 · DOI 10.1056/NEJMoa1808312 | [6] Sociedade Brasileira de Cardiologia. Endocardite Infecciosa: Diretriz para o Manejo do Paciente com Doença Cardíaca. Arq Bras Cardiol. 2011;97(2 Supl 2):1-33 · DOI 10.1093/eurheartj/ehad193
A endocardite infecciosa (EI) é a infecção do endotélio cardíaco, acometendo sobretudo as valvas, com formação de vegetações de plaquetas, fibrina e micro-organismos. Tem incidência de 2 a 10 casos por 100.000 pessoas-ano na população geral, crescente com a idade, e mortalidade intra-hospitalar de 15 a 30%, mantida nas últimas décadas apesar dos antibióticos modernos. O perfil epidemiológico mudou: predominam hoje pacientes mais velhos, com próteses, dispositivos intracardíacos, infecção associada ao cuidado de saúde e uso de drogas injetáveis, e o Staphylococcus aureus desbancou os estreptococos como agente mais frequente. Para a prova, o aluno precisa dominar: critérios de Duke modificados, sequência hemocultura-ecocardiograma, esquemas antibióticos com dose e duração, as três indicações cirúrgicas e a profilaxia restrita de alto risco.
A EI classifica-se por topografia, por tempo de instalação e por via de aquisição, porque cada estrato muda o agente provável, o esquema empírico e o prognóstico. A distinção mais cobrada é entre valva nativa e valva protética: na prótese, separa-se precoce (até 60 dias da cirurgia, flora hospitalar, com estafilococos coagulase-negativos e S. aureus) e tardia (após 60 dias, flora semelhante à da valva nativa). A EI direita (tricíspide) marca o usuário de drogas injetáveis, com febre, embolias pulmonares sépticas e hemoculturas positivas sem sopro clássico; a EI esquerda (aórtica e mitral) tem mais embolias sistêmicas, insuficiência cardíaca e indicação cirúrgica. A EI negativa em hemocultura (5-10% dos casos) impõe sorologias (Coxiella burnetii, Bartonella) e raciocínio com o serviço de infectologia.
| Classificação | Definição | Implicação prática |
|---|---|---|
| Valva nativa | Sem material protético no coração | Agentes da flora oral e cutânea; S. aureus é o mais frequente |
| Prótese precoce | Até 60 dias da implantação valvar | Flora hospitalar: S. aureus e estafilococos coagulase-negativos; pior prognóstico |
| Prótese tardia | Após 60 dias da implantação | Flora semelhante à da valva nativa; ainda com abscessos periannulares frequentes |
| Direita (tricíspide) | Predomina em usuários de drogas injetáveis | Embolias pulmonares sépticas, hemoptise, pouca insuficiência cardíaca |
| Esquerda (mitral/aórtica) | Valvas do lado sistólico | Insuficiência cardíaca, AVC embólico, maior necessidade cirúrgica |
| Associada ao cuidado de saúde | Início de sintomas acima de 48 h após internação ou procedimento | Predomínio de S. aureus resistente e enterococos |
A incidência sobe progressivamente com a idade e a maior parte dos casos atuais ocorre acima dos 60 anos. O S. aureus é hoje o agente mais frequente no Brasil e no mundo (25-31% dos casos), seguido dos estreptococos do grupo viridans (20-30%) e dos enterococos (cerca de 10%). Fatores predisponentes clássicos: valvopatia reumática (ainda importante no Brasil), próteses e dispositivos, prolapso mitral com regurgitação, defeito septal, idade avançada, diabetes, hemodiálise, imunossupressão, câncer e uso de drogas injetáveis. Estreptococos bovis (gallolyticus) associam-se a neoplasias e pólipos do cólon: isolamento manda investigar colonoscopia.
| Agente | Contexto típico | Peso na prova |
|---|---|---|
| Staphylococcus aureus | Valva nativa, cuidado de saúde, cateteres, drogas injetáveis | Agente mais frequente da EI atualmente; bacteriemia alta e destruição valvar rápida |
| Estreptococos do grupo viridans | Valvopatia prévia e manipulação odontológica | Curso subagudo; sensível à penicilina na maioria |
| Streptococcus gallolyticus (bovis) | Idosos, lesões colorretais | Isolamento obriga a rastrear cólon |
| Enterococcus faecalis/faecium | Trato geniturinário e intestinal, procedimentos urológicos | Terapia combinada com ampicilina e gentamicina |
| Estafilococos coagulase-negativos | Prótese precoce | Suspeitar também de contaminação de frasco isolado |
| HACEK e fungos | EI de curso arrastado, negativa em cultura comum | Hemoculturas com incubação prolongada; fungos em imunossuprimidos e próteses |
A EI esquerda clássica exige dois ingredientes: endotélio valvar danificado e bacteriemia. Jatos regurgitantes e fluxo turbulento (regurgitação mitral ou aórtica, defeito septal, prótese) ulceram o endotélio e depositam trombos estéreis de plaquetas e fibrina, a endocardite trombótica não bacteriana. Na sequência, uma bacteriemia (manipulação dentária, escovação, cateter, abscesso, uso de drogas injetáveis) semeia esse trombo; o S. aureus adere diretamente mesmo a valva normal, o que explica sua liderança. As vegetações formam-se a jusante do fluxo do jato: face atrial da valva mitral e face ventricular da aórtica.
A febre está presente em 90-95% dos casos, associada a calafrios, anorexia, perda de peso e sudorese noturna, em curso que pode ser agudo (S. aureus: dias) ou subagudo (viridans: semanas). Um sopro novo ou mudança de sopro pré-existente ocorre em 80-85%; na EI direita, pode não haver sopro. O diagnóstico deve ser considerado em toda febre sem foco com sopro, bacteriemia por agente típico, AVC embólico jovem ou proteinúria com hematuria. Achados periféricos tornaram-se menos frequentes pelo diagnóstico mais precoce, mas seguem cobrados: nódulos de Osler (pequenos, dolorosos, em polpas digitais, de origem imunológica) e lesões de Janeway (maculas indolores em palmas e plantas, por microembolias sépticas), manchas de Roth (exsudatos retinianos com hemorragia central), hemorragias em estilhaço, hepatoesplenomegalia e petéquias. Manifestações neurológicas ocorrem em 20-40% dos casos, sobretudo AVC isquêmico embólico.
Antes de qualquer antibiótico, colete 3 conjuntos de hemoculturas (frascos aeróbios) de punções venosas distintas, com intervalo de 30-60 minutos; em três conjuntos, a positividade chega a 95-100% na EI não tratada, enquanto o uso prévio de antibiótico derruba a positividade e alonga o crescimento. A ecocardiografia confirma a lesão: o ecocardiograma transtorácico (ETT) é o primeiro exame na suspeita de EI de valva nativa, com sensibilidade de 40-60% para vegetações; o transesofágico (ETE) eleva a sensibilidade para 90-95% na valva nativa e 86-94% na prótese, além de ser obrigatório para procurar abscesso periannular, fistulização e deiscência de prótese. A PET-TC com captação anômala ao redor de prótese implantada há mais de 3 meses entrou como critério maior na ESC 2023.
| Critérios de Duke modificados | Itens |
|---|---|
| Maiores | Hemoculturas positivas para microrganismo típico (estreptococos do grupo viridans, S. gallolyticus, HACEK, S. aureus, enterococo comunitário) em 2 conjuntos separados, ou hemoculturas persistentes (2 conjuntos com mais de 12 h de intervalo, ou 3 de 4 coletas com primeira e última distantes de pelo menos 1 h), ou sorologia de fase I para Coxiella burnetii acima de 1:800, ou 1 hemocultura positiva para Coxiella |
| Maiores | Imagem positiva: vegetação, abscesso, pseudoaneurisma ou fístula na ecocardiografia; deiscência parcial nova de prótese; captação anômala na PET-TC ao redor de prótese; nova regurgitação valvar |
| Menores | Predisposição: cardiopatia de risco ou uso de drogas injetáveis; febre acima de 38 graus Celsius; fenômenos vasculares (embolia arterial, infarto pulmonar séptico, aneurisma micótico, hemorragia intracraniana, hemorragia conjuntival, lesões de Janeway) |
| Menores | Fenômenos imunológicos (nódulos de Osler, manchas de Roth, glomerulonefrite, fator reumatoide positivo); achado microbiológico que não preenche critério maior; lesão ecocardiográfica suspeita que não preenche critério maior |
| EI definitiva | 2 critérios maiores, ou 1 maior + 3 menores, ou 5 menores (patologia ou cultura do tecido também definem) |
| EI possível | 1 maior + 1 menor, ou 3 menores |
A terapia é bactericida, endovenosa e prolongada, guiada pelo antibiograma, com duração contada a partir do primeiro dia de hemoculturas negativas (ou do dia de eficácia clínica). Doses renal-adjust devem ser lembradas. O quadro resume os esquemas de valva nativa e prótese dos microrganismos principais, segundo ESC 2023 e AHA.
| Agente e situação | Esquema preferencial | Duração |
|---|---|---|
| Estreptococos do grupo viridans e S. gallolyticus sensíveis (CIM de penicilina até 0,12 mcg/mL) | Penicilina G cristalina 12-18 milhões UI/dia IV contínua ou fracionada a cada 4 h, ou ceftriaxona 2 g IV ou IM 1 vez ao dia | 4 semanas (regime de 2 semanas com penicilina ou ceftriaxona + gentamicina 3 mg/kg/dia é exceção para valva nativa em jovem sem complicação) |
| Estreptococos com sensibilidade intermediária (CIM acima de 0,12 até 0,5 mcg/mL) | Penicilina G 24 milhões UI/dia IV + gentamicina 3 mg/kg/dia nas primeiras 2 semanas | 4 semanas |
| S. aureus sensível à oxacilina, valva nativa | Oxacilina 2 g IV a cada 4 h (12 g/dia); alternativa cefazolina 2 g IV a cada 4 h na alergia não anafilática | 4 a 6 semanas (4 semanas na EI não complicada) |
| S. aureus resistente à meticilina (MRSA) | Vancomicina 25-30 mg/kg de ataque e depois 15-20 mg/kg IV a cada 8-12 h, visando vale de 15-20 mcg/mL; alternativa daptomicina 8-10 mg/kg/dia IV | 4 a 6 semanas |
| S. aureus em prótese valvar | Oxacilina ou vancomicina + rifampicina 300 mg VO a cada 8 h + gentamicina 1 mg/kg IV a cada 8 h nas primeiras 2 semanas | Rifampicina e beta-lactâmico/vancomicina por pelo menos 6 semanas |
| Enterococos sensíveis | Ampicilina 2 g IV a cada 4 h (ou penicilina G 18-30 milhões UI/dia) + gentamicina 1 mg/kg IV a cada 8 h | 4 a 6 semanas |
| Terapia empírica em valva nativa aguda (cobrir S. aureus) | Vancomicina 15-20 mg/kg IV a cada 8-12 h + gentamicina 1 mg/kg a cada 8 h, ajustando ao isolamento | Até identificação e então esquema dirigido |
| Terapia empírica em valva nativa subaguda | Ampicilina 2 g IV a cada 4 h + oxacilina 2 g IV a cada 4 h (ou vancomicina) + gentamicina 1 mg/kg a cada 8 h | Até identificação e então esquema dirigido |
Aminoglicosídeos exigem concentrações de pico e vale e toxicidade auditiva e renal monitoradas; a vancomicina exige nível de vale entre 15 e 20 mcg/mL na EI. Rifampicina só tem lugar na EI de prótese por estafilococo: na valva nativa não acrescenta benefício e aumenta resistência e interações. Na EI negativa em hemocultura, além de repetir culturas com incubação prolongada, pedem-se sorologias para Coxiella e Bartonella e discussão com infectologia. A monitorização do tratamento exige hemoculturas até a negativação (esperada em 2-5 dias na EI por viridans e em torno de 3-5 dias na por S. aureus), ETE de controle na persistência de febre ou bacteriolia e exames para toxicidade.
Quase metade dos pacientes opera ainda na internação. As indicações agrupam-se em três eixos e o momento classifica-se em emergência (nas primeiras 24 horas), urgente (3-7 dias) e eletivo. Insuficiência cardíaca por destruição valvar é a principal causa de cirurgia e de morte na EI: regurgitação aguda grave, obstrução valvar por vegetação volumosa, fístula ou deiscência de prótese com edema agudo de pulmão ou choque cardiogênico pedem operação emergência.
As diretrizes atuais restringiram a profilaxia odontológica aos grupos de maior risco, porque a bacteriemia cotidiana (escovação, mastigação) supera em muito a dos procedimentos e a evidência de benefício populacional é fraca. Não há indicação de profilaxia para endoscopia digestiva, colonoscopia, cistoscopia ou procedimentos geniturinários e respiratórios de rotina em pacientes cardíacos.
As complicações cardíacas dominam: insuficiência cardíaca por regurgitação aguda (a principal causa de morte), abscesso periannular (10-40% na prótese e menor na valva nativa), pericardite por extensão e bloqueios de condução por abscessos septais. As extracardíacas incluem eventos embólicos em 20-50% (cérebro em mais da metade), aneurismas micóticos intracranianos com risco de hemorragia, infartos e abscessos esplênicos e renais, glomerulonefrite e perda de peso importante. A mortalidade intra-hospitalar situa-se entre 15 e 30%, chegando a 40% na EI de prótese precoce; a sobrevida em 5 anos fica em torno de 60-70%. Piores prognósticos: idade avançada, EI por S. aureus ou fungos, prótese, abscesso periannular, insuficiência cardíaca, eventos embólicos grandes e atraso diagnóstico. O seguimento após cura inclui ecocardiograma, vigilância de infecção residual e atenção à saúde bucal, com reavaliação valvar periódica.
1.Qual é o agente mais frequente de endocardite infecciosa em valva nativa atualmente?
2.Qual achado configura critério MAIOR nos critérios de Duke modificados?
3.Sobre a sensibilidade dos métodos de imagem na EI, qual afirmativa é correta?
4.Homem de 45 anos, EI de valva nativa por S. aureus sensível à oxacilina, sem alergia. Qual o esquema preferencial?
5.Na endocardite de PRÓTESE valvar por S. aureus, o que se acrescenta ao esquema base?
6.Paciente com EI apresenta lesões dolorosas, nodulares, em polpas digitais, e glomerulonefrite. Qual o mecanismo desses achados?
7.Qual é a principal causa de morte e a principal indicação de cirurgia na EI?
8.Portador de prótese valvar metálica fará extração dentária. Qual conduta profilática correta?
9.Paciente com EI à esquerda por E. faecalis está afebril e estável após 10 dias de ampicilina e gentamicina, com hemoculturas negativas. Segundo o POET, qual opção é aceitável?
10.Vegetação de 12 mm na valva mitral com EI por estreptococo, paciente que teve AVC isquêmico embólico há 2 dias apesar de antibiótico adequado desde 8 dias. Qual conduta?
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