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Panorama de saúde coletiva da medicina nuclear no Sistema Único de Saúde: procedimentos cobertos (cintilografias, SPECT e PET-CT), números de infraestrutura e desigualdade regional, produção de radiofármacos pelo IPEN, marcos regulatórios e a agenda futura do Reactor Multipropósito Brasileiro.
[1] Pozzo L, Oliveira ML, Menezes MO, Toscas FS. A Medicina Nuclear no Sistema Único de Saúde. Ciênc Saúde Coletiva. 2025;30(1):e4962023 · DOI 10.1590/1413-8123202530104962023 | [2] Pozzo L, Coura Filho G, et al. O SUS na medicina nuclear do Brasil: avaliação e comparação dos dados fornecidos pelo Datasus e CNEN. Radiol Bras. 2014;47(3):141-148 · DOI 10.1590/0100-3984.2013.1906 | [3] International Atomic Energy Agency. Nuclear Medicine Database (NUMDAB). Viena: IAEA · https://www.iaea.org/resources/databases/numdab | [4] Brasil. Ministério da Saúde. DATASUS — Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS) · https://datasus.saude.gov.br | [5] Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Licenciamento de serviços de medicina nuclear · https://www.gov.br/cnen · DOI 10.1590/1413-8123202530104962023
A medicina nuclear é a especialidade que usa fontes radioativas não seladas — os radiófármacos — para diagnosticar e tratar doenças acompanhando processos fisiológicos em tempo real: perfusão do miocárdio, metabolismo de tumores, função tireoidiana e renal. No Sistema Único de Saúde, ela é simultaneamente estratégica e escassa: o estudo de Pozzo e colaboradores (Ciência & Saúde Coletiva, 2025) mostrou que, em dezembro de 2021, o Brasil tinha 449 serviços convencionais e 159 instalações de PET, com mais da metade concentrada no Sudeste, apenas 0,54 equipamento de PET por milhão de habitantes (contra 5,4 ou mais nos Estados Unidos) e uma lista reduzida de 54 procedimentos diagnósticos na tabela do SIGTAP. Para provas de saúde coletiva e gestão, o tema cobra números de infraestrutura, noções de regulação (CNEN, ANVISA, Ministério da Saúde), financiamento (SIGTAP, APAC) e os conceitos de equidade e integralidade aplicados ao acesso tecnológico.
Diferentemente da radiologia convencional, que ilumina o corpo com feixes externos de raios X, a medicina nuclear administra no paciente uma substância marcada com um radionuclídeo (o radiófármaco) que se distribui segundo a fisiologia do órgão-alvo; os raios gama emitidos são captados por detectadores e transformados em imagem funcional. O workhorse da especialidade é o tecnécio-99m, gerador de meia-vida de 6 horas que marca kit liofilizados para a maioria dos exames convencionais (cintilografias planares e SPECT — tomografia por emissão de fótons únicos). O exame mais avançado é o PET (tomografia por emissão de pósitrons), quase sempre com 18F-fluordeoxiglicose (18F-FDG), análogo radioativo da glicose que acumula onde o metabolismo glicolítico é intenso — tumores, inflamação, miocárdio e cérebro — e é lido em conjunto com a TC acoplada (PET-CT). Em terapia, administra-se atividade terapêutica de iodo-131 (em doenças da tireoide), Samário-153 ou Lutécio-177, entre outros, aproveitando a irradiação local do decaimento.
A tabela SIGTAP do Ministério da Saúde remunera 54 procedimentos diagnósticos de medicina nuclear. Na prática ambulatorial do SUS, dois exames dominam a produção: a cintilografia óssea e a cintilografia de perfusão miocárdica em repouso e estresse respondem juntas por cerca de 80,1% a 85,2% de todos os procedimentos realizados. O PET-CT com 18F-FDG foi incorporado ao SUS em 2014 (Portaria nº 1.340), inicialmente para três indicações oncológicas: estadiamento do câncer de pulmão, avaliação de metástases hepáticas de câncer colorretal e estadiamento e resposta ao tratamento de linfomas. Em terapia, o SUS paga radioiodoterapia para câncer diferenciado de tireoide com atividades que vão de 1,11 GBq (30 mCi, ambulatorial) até 9,25 GBq (250 mCi, com internação por radioproteção), além de dose para hipertireoidismo e de paliativa para dor óssea metastática.
| Procedimento | Radiofármaco típico | Indicação clínica principal no SUS |
|---|---|---|
| Cintilografia óssea de corpo inteiro | Tc-99m-MDP | Metástases ósseas (próstata, mama), infecção osteoarticular, algias de causa indeterminada |
| Cintilografia de perfusão miocárdica (repouso e estresse) | Tc-99m-sestamibi ou tetrofosmim | Isquemia miocárdica e risco em doença arterial coronariana suspeita ou conhecida |
| Cintilografia tireoidiana | Iodo-123 ou Tc-99m | Nódulos tireoidianos (frio/quente), tireotoxicose, ectopia |
| Cintilografia renal (DMSA estática e DTPA/MAG3 dinâmica) | Tc-99m-DMSA ou DTPA | Cicatrizes renais em pielonefrite, obstrução e função renal diferenciada |
| Cintilografia de paratireoides | Tc-99m-sestamibi | Localização de adenoma paratireoidiano no hiperparatireoidismo |
| PET-CT com 18F-FDG | 18F-FDG | Estadiamento de câncer de pulmão, metástases hepáticas colorretais, estadiamento e resposta de linfoma |
| Radioiodoterapia | Iodo-131 (30 a 250 mCi) | Câncer diferenciado de tireoide e hipertireoidismo; doses maiores exigem internação |
A medicina nuclear brasileira nasceu nos anos 1950, impulsionada pelo reator de pesquisa IEA-R1 do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), inaugurado em 1957 em São Paulo como o primeiro reator do hemisfério sul, que sustentou a produção nacional de radioisótopos. A Constituição de 1988 reservava ao Estado o monopólio do setor nuclear de radioisótopos até a Emenda Constitucional nº 49/2006, que liberou a produção e comercialização de radiofármacos pela iniciativa privada — marco que desencadeou a expansão dos ciclotrons privados nas capitais. Em 2014, a Portaria nº 1.340 incorporou o PET-CT com 18F-FDG ao SUS para três indicações oncológicas. Na década de 2020 vieram a Resolução CONFAZ ICMS 131/2021 (isenção do imposto estadual para radiofármacos destinados ao SUS, efetivada a partir de 2023) e a RDC ANVISA 567/2021, que autorizou importação excepcional de radiofármacos não registrados diante do risco de desabastecimento pela crise do IPEN. O Reactor Multipropósito Brasileiro (RMB), incluído no novo PAC em 2023, é a aposta para eliminar a dependência de importação de radioisótopos, com horizonte de ao menos cinco anos até operação.
Os dados de dezembro de 2021 (CNEN) mostram 449 serviços convencionais de medicina nuclear, 159 instalações de PET, 4 radiofarmácias centralizadas e 11 estabelecimentos com ciclotron (2 públicos no Sudeste e 9 pertencentes a 3 empresas privadas). A distribuição reproduz a hierarquia regional brasileira: cerca de 55% dos serviços convencionais e 53% das instalações de PET estão no Sudeste, enquanto o Norte reúne apenas cerca de 4,9% e 4,4%, respectivamente, e não há ciclotrons no Norte nem no Centro-Oeste (exceto Distrito Federal). O cadastro CNES agrega 614 instalações com gammacâmaras e 102 com PET, números que excedem os da CNEN e expõem a fragilidade de integração entre as bases oficiais — o que os próprios autores do estudo apontam como obstáculo ao planejamento. Em equipamentos por habitante (2020), o Brasil tinha 3,50 gammacâmaras e 0,54 PET por milhão de habitantes, contra 45,2 e 7,3 nos Estados Unidos e faixas de 6,7 a 16,0 e de 0,1 a 8,0 na Europa.
A estimativa citada no estudo é de que seriam necessários 385 equipamentos adicionais de PET-CT para cobrir o país (237 deles em localidades que hoje não dispõem de nenhum). O Ministério da Saúde adota o parâmetro de 1 PET-CT para cada 1,5 milhão de habitantes, enquanto a Agência Internacional de Energia Atômica sugere de 1 a 2,5 por milhão — parâmetros que o Brasil não alcança na maioria das regiões. A participação do SUS também encolheu: a estimativa de equipamentos de PET vinculados ao SUS caiu de 59,5% em 2015 para cerca de 49 a 53% em 2021, e o parque de gammacâmaras diminuiu a partir de 2019, com envelhecimento da frota.
O IPEN abastece historicamente grande parte dos radiofármacos brasileiros, com destaque para os geradores de molibdênio-99/tecnécio-99m — responsáveis por cerca de metade do déficit comercial da área, estimado em US$ 30 milhões por ano em radiofármacos e equipamentos. Em 2018, o IPEN descontinuou boa parte de seus kits liofilizados, deixando uma única empresa privada como fornecedora nacional desse item; sete radiofármacos de PET têm autorização no Brasil, mas apenas o 18F-FDG é usado de forma rotineira no SUS. Não há gammacâmara ou PET-CT fabricado e registrado no país, o que soma importação de equipamentos ao passivo tecnológico. A tributação reflete a política setorial: radiofármacos são isentos de IPI e ICMS (quando destinados ao SUS), enquanto equipamentos pagam alíquotas reduzidas de IPI e PIS/COFINS e tarifas de importação entre 2% e 10%. O RMB, planejado para produzir radioisótopos em escala, é a principal estratégia estrutural para reverter essa dependência.
A porta de entrada do paciente no SUS é a atenção primária, mas a medicina nuclear é procedimento de alta complexidade: depende de autorização (APAC no SIA/SUS), de central de regulação estadual e de referência ambulatorial especializada. O resultado prático são filas longas para perfusão miocárdica e PET-CT, deslocamentos intermunicipais de pacientes do interior e subutilização relativa: a produção ambulatorial do SUS gira em torno de 4 a 5 exames por equipamento convencional e de cerca de 2 exames por PET ao mês em cenários estimados, bem abaixo da capacidade instalada privada. A agenda apontada pelos estudos da área inclui integrar as bases CNEN, CNES e DATASUS em um cadastro único confiável, atualizar os protocolos de indicação e a tabela SIGTAP (congelada em procedimentos e valores), expandir o PET-CT para indicações consolidadas em diretrizes internacionais e criar uma força-tarefa nacional de medicina nuclear na saúde pública.
Para o estudante, o que torna a medicina nuclear irremovível do sistema são as situações em que ela muda conduta a custo menor que alternativas: cintilografia óssea na investigação de metástases e dor óssea (alta sensibilidade, detecta lesões antes da radiografia), perfusão miocárdica como teste anatômico-funcional em dor torácica intermediária (estratifica quem precisa de cateterismo), DMSA para cicatriz renal em pielonefrite recorrente da criança, sestamibi para localizar adenoma de paratireoide antes da cirurgia, radioiodoterapia como tratamento ablativo adjuvante do câncer diferenciado de tireoide e PET-CT para reestadiamento de linfoma (onde troca de conduta ocorre em parcela relevante dos pacientes). O argumento econômico da saúde coletiva é direto: cada exame indicado corretamente evita internações, cirurgias desnecessárias e tratamentos tardios — o gargalo é garantir que o paciente chegue ao exame em tempo útil.
1.A principal diferença entre a medicina nuclear e a radiologia convencional é que a medicina nuclear:
2.Segundo o estudo de Pozzo et al. (2025), os dois procedimentos que juntos respondem por cerca de 80 a 85% da produção ambulatorial de medicina nuclear no SUS são:
3.O PET-CT com 18F-FDG foi incorporado ao SUS em 2014 para três indicações iniciais. Qual alternativa as contém corretamente?
4.Em dezembro de 2021, os números oficiais de infraestrutura de medicina nuclear no Brasil eram:
5.Sobre a distribuição regional dos serviços de medicina nuclear no Brasil, é correto afirmar:
6.A razão brasileira de equipamentos de PET por milhão de habitantes (dado de 2020) é de aproximadamente:
7.A Emenda Constitucional nº 49/2006 teve qual impacto sobre a medicina nuclear brasileira?
8.No SUS, a radioiodoterapia do câncer diferenciado de tireoide é paga em atividades que vão até:
9.Sobre a produção e o abastecimento de radiofármacos no Brasil, qual afirmativa é correta?
10.São ações centrais da agenda futura da medicina nuclear no SUS apontadas pela literatura da área:
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