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Revisão completa do pasireotide na prevenção da fístula pancreática pós-operatória: critérios ISGPS 2016, fisiopatologia e farmacologia, o ensaio do NEJM 2014 com doses e resultados, evidência de replicação e pontos de prova.
[1] Allen PJ, Gönen M, Brennan MF, et al. Pasireotide for postoperative pancreatic fistula. N Engl J Med. 2014;370(21):2014-2022 · DOI 10.1056/NEJMoa1313688 | [2] Bassi C, Marchegiani G, Dervenis C, et al. The 2016 update of the International Study Group (ISGPS) definition and grading of postoperative pancreatic fistula: 11 years after. Surgery. 2017;161(3):584-591 · DOI 10.1016/j.surg.2016.11.014 | [3] Elliott IA, Dann AM, Ghukasyan R, et al. Pasireotide does not prevent postoperative pancreatic fistula: a prospective study. HPB (Oxford). 2018;20(5) · PMID 29398424 | [4] Liu X, Pausch T, Probst P, et al. Efficacy of pasireotide for prevention of postoperative pancreatic fistula in pancreatic surgery: a systematic review and meta-analysis. J Gastrointest Surg. 2020 · PMID 32207077 · DOI 10.1056/NEJMoa1313688
A fístula pancreática pós-operatória (POPF, de postoperative pancreatic fistula) é a complicação que mais gera morbidade após pancreatectomia: prolonga a internação, abre caminho para abscessos, hemorragias digestivas e sepse, e é a principal causa de reoperação e morte após duodenopancreatectomia. Foi nesse cenário que o ensaio publicado no New England Journal of Medicine em 2014 por Allen e colaboradores, no Memorial Sloan Kettering Cancer Center, testou o pasireotide, um análogo multirreceptor da somatostatina, como prevenção farmacológica da POPF clinicamente relevante. O estudo mostrou redução de aproximadamente metade dos eventos e se tornou um dos ensaios mais citados da cirurgia pancreática. A replicação posterior, porém, foi decepcionante, o que transforma o tema em um clássico de prova sobre leitura crítica de ensaios positivos de centro único que não se confirmam.
Toda ressecção pancreática deixa uma superfície cruada ou uma anastomose entre parênquima pancreático e intestino. Quando a sutura do coto pancreaticogástrico ou da pancreaticojejunostomia falha, o suco pancreático rico em enzimas se ativa em contato com o tecido peripancreático e digere as estruturas vizinhas. O resultado é a cadeia fístula, coleção, infecção, pseudoaneurisma e hemorragia, responsável por grande parte da mortalidade operatória. A incidência de fístula clinicamente relevante gira em torno de 10 a 15% após duodenopancreatectomia em centros de alto volume e pode superar 20% nas pancreatectomias distais, além dos casos de extravasamento puramente bioquímico, que somam uma parcela adicional e não raro majoritária. Os principais fatores de risco são parênquima mole (pâncreas não fibrótico), ducto pancreático principal fino (menor que 3 mm), índice de massa corporal elevado, sangramento intraoperatório relevante e baixo volume cirúrgico do serviço.
O International Study Group on Pancreatic Surgery (ISGPS) padronizou a linguagem do tema. Desde a atualização de 2016, considera-se POPF qualquer débito mensurável pelo dreno a partir do terceiro dia pós-operatório (D3) com dosagem de amilase maior que três vezes o limite superior sérico normal do laboratório local. O antigo grau A foi rebatizado de leak bioquímico (biochemical leak) e deixou de ser considerado fístula: não muda a conduta nem piora o prognóstico. Fístula clinicamente relevante (CR-POPF, de clinically relevant POPF) é o somatório dos graus B e C, e é esse desfecho que importa para o paciente, para os ensaios clínicos e para as provas.
| Grau ISGPS 2016 | Definição | Desfecho e conduta típica |
|---|---|---|
| Biochemical leak (ex-grau A) | Amilase do dreno maior que 3 vezes o limite sérico a partir do D3, sem repercussão clínica | Não muda conduta; retirar o dreno e seguir; não é mais contabilizado como fístula |
| Grau B | Repercussão clínica que muda o manejo: débito persistente além de 3 semanas, alta retardada, reinternação, coleção drenada por via percutânea, infecção tratada clinicamente | Internação prolongada, drenagem percutânea, antibiótico, suporte nutricional |
| Grau C | Instabilidade que exige reoperação, disfunção de órgão ou óbito relacionado à fístula | Reoperação e terapia intensiva; concentra a mortalidade do quadro |
A somatostatina endógena inibe a secreção exócrina do pâncreas por receptores acoplados à proteína G denominados sst1 a sst5. A lógica farmacológica é direta: reduzir o volume, as enzimas e o bicarbonato da secreção pancreática diminuiria a pressão dentro do ducto e a agressividade do suco que eventualmente vaza pela anastomose. O octreotide, primeiro análogo disponível, tem afinidade predominante pelo sst2 e meia-vida curta, de cerca de 100 minutos, exigindo três aplicações diárias; os ensaios com octreotide em pancreatectomia mostraram resultados conflitantes. O pasireotide (SOM230) é um análogo multirreceptor, com afinidade elevada por sst1, sst2, sst3 e principalmente sst5, e meia-vida de aproximadamente 12 horas, o que permite uso duas vezes ao dia. Em modelos experimentais, o pasireotide suprime de forma mais intensa a secreção exócrina pancreática estimulada, o que justificou o ensaio clínico em humanos.
| Característica | Pasireotide (SOM230) | Octreotide |
|---|---|---|
| Receptores com alta afinidade | sst1, sst2, sst3 e sst5 | sst2 (e sst5 com afinidade menor) |
| Meia-vida | Cerca de 12 horas | Cerca de 100 minutos |
| Esquema em pancreatectomia | 900 mcg subcutâneo a cada 12 horas | 100 a 500 mcg subcutâneo a cada 8 horas |
| Indicações registradas | Doença de Cushing e acromegalia | Tumores neuroendócrinos, acromegalia, varizes esofágicas |
| Evidência em POPF | Um ensaio positivo (NEJM 2014) que não se confirmou na replicação | Múltiplos ensaios com resultados conflitantes |
Trata-se de ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, de centro único (Memorial Sloan Kettering Cancer Center), que incluiu 300 pacientes submetidos a duodenopancreatectomia ou pancreatectomia distal. Os participantes foram alocados 1:1 para pasireotide 900 mcg subcutâneo a cada 12 horas ou placebo idêntico, com a primeira dose administrada ao menos duas horas antes da cirurgia e manutenção por sete dias, totalizando 14 doses. O desfecho primário, avaliado com cegamento mantido, foi fístula, extravasamento (leak) ou abscesso pancreático clinicamente significativo, definido pelos graus B ou C da classificação da época. Desfechos secundários incluíram duração da internação, necessidade de drenagem percutânea e reoperação.
O desfecho primário ocorreu em 9,2% dos pacientes que receberam pasireotide contra 21,1% daqueles que receberam placebo, o que corresponde a uma redução relativa de cerca de 56% e a um número necessário para tratar em torno de 9 pacientes para prevenir um evento clinicamente relevante. O benefício foi consistente nos dois tipos de operação, na duodenopancreatectomia e na pancreatectomia distal, e nos subgrupos de maior risco, como pâncreas mole com ducto fino. Não houve diferença de mortalidade global entre os braços, resultado esperado porque a amostra foi calculada com poder para o desfecho composto e não para morte, e porque a mortalidade isolada da fístula é baixa demais para ser capturada com 300 pacientes.
O pasireotide inibe também a insulina e as incretinas por ação no receptor sst5, e a hiperglicemia é o efeito adverso característico: no ensaio, as elevações glicêmicas foram mais frequentes no braço ativo, em geral leves a moderadas e autolimitadas ao fim do esquema, mas exigem glicemia capilar de rotina durante os 7 dias, sobretudo em pacientes diabéticos. A náusea foi descrita como limitante de dose em parcela relevante dos pacientes nos estudos de replicação. Na bula da molécula, registrada para doença de Cushing e acromegalia, constam ainda prolongamento do intervalo QT, elevação de transaminases, diarreia e colelitíase com uso prolongado, razões para cautela em pacientes com hipopotassemia, hipomagnesemia ou em uso concomitante de drogas que prolongam o QT.
A trajetória do pasireotide é um dos melhores exemplos recentes de ensaio positivo de centro único que sofre na replicação. Elliott e colaboradores (2018) conduziram estudo prospectivo adequadamente dimensionado com o mesmo esquema de 900 mcg duas vezes ao dia e não encontraram proteção: as taxas de fístula clinicamente relevante foram semelhantes entre quem recebeu e quem não recebeu a droga, em torno de 15 a 17%, com náusea frequente. Análises de bases administrativas, como a de Young e colaboradores (2018), chegaram à mesma conclusão. A metanálise de Liu e colaboradores (2020), reunindo os estudos disponíveis, concluiu que o pasireotide pode não reduzir a fístula clinicamente relevante nem melhorar de forma substancial o curso pós-operatório. Por isso, a droga permanece sem registro para essa indicação na maioria das agências reguladoras, incluindo a ANVISA, e novos ensaios com análogos da somatostatina seguem em andamento para definir se existe papel farmacológico na prevenção da POPF.
| Estudo | Desenho | Achado principal | Leitura crítica |
|---|---|---|---|
| Allen e cols., NEJM 2014 | Ensaio randomizado duplo-cego, centro único, n=300 | POPF grau B/C de 9,2% com pasireotide vs 21,1% com placebo | Positivo, porém monocêntrico e patrocinado pela indústria |
| Elliott e cols., HPB 2018 | Estudo prospectivo com o mesmo esquema, cerca de 168 pacientes | Sem diferença de CR-POPF, aproximadamente 17,1% vs 15,5% | Replicação negativa com alta taxa de náusea limitante |
| Liu e cols., J Gastrointest Surg 2020 | Metanálise de estudos sobre pasireotide | Pasireotide pode não reduzir a CR-POPF | Heterogeneidade entre os estudos limita qualquer conclusão firme |
A fístula pancreática estabelecida prolonga a internação em dias a semanas e encadeia abscesso intra-abdominal, peritonite química, pseudoaneurisma da artéria gastroduodenal ou esplênica com hemorragia maciça, sepse e reoperação. O grau C concentra a mortalidade, que alcança a casa dos dois dígitos em séries históricas. O tratamento é dominado pelo controle da fonte: dreno mantido com baixa sucção, antibioticoterapia diante de sinais de infecção, drenagem percutânea guiada por imagem para coleções, suporte nutricional preferindo a via enteral e reoperação reservada para instabilidade, peritonite ou hemorragia. Fístulas de baixo débito fecham espontaneamente na maioria dos pacientes em semanas; a persistência além de 6 a 8 semanas pede avaliação endoscópica ou operatória, incluindo stent ductal por CPRE em casos selecionados.
Para o paciente, a CR-POPF significa internação que frequentemente dobra de duração, reinternações, retardo ou abandono da quimioterapia adjuvante no câncer de pâncreas e piora da qualidade de vida. Para o serviço, significa custo multiplicado, já que cada evento grau B agrega procedimentos de imagem e dias de leito. A prevenção continua cirúrgica antes de farmacológica: técnica de anastomose, experiência do centro e seleção do tipo de operação pesam mais do que qualquer droga. O pasireotide entra, quando muito, como decisão individualizada para pacientes de alto risco, com consentimento informado sobre a evidência contraditória e vigilância glicêmica garantida.
1.Segundo os critérios ISGPS 2016, o diagnóstico de fístula pancreática pós-operatória exige:
2.Sobre o biochemical leak (ex-grau A) da classificação ISGPS 2016:
3.Qual esquema de pasireotide foi testado no ensaio de Allen e colaboradores (NEJM 2014)?
4.O desfecho primário do ensaio do NEJM 2014 foi:
5.No ensaio de Allen e colaboradores, as taxas do desfecho primário foram:
6.O racional fisiopatológico do pasireotide na prevenção da POPF é:
7.O principal efeito adverso do pasireotide que exige monitorização durante o uso perioperatório é:
8.Qual diferença farmacocinética justifica o esquema duas vezes ao dia do pasireotide em comparação ao octreotide?
9.A metanálise de Liu e colaboradores (2020) sobre pasireotide em cirurgia pancreática concluiu que:
10.Na classificação ISGPS 2016, uma fístula que evolui com disfunção de órgão e exige reoperação é:
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